New York Times aponta quem é o criador do Bitcoin após 18 meses de investigação

Repórter do jornal americano dedicou mais de um ano a rastrear documentos, arquivos e padrões linguísticos que convergem para um único nome: Adam Back, criptógrafo britânico de 55 anos.

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Por 16 anos, a identidade de Satoshi Nakamoto, o criador do Bitcoin e detentor de uma fortuna estimada em US$ 118 bilhões, permaneceu o enigma mais bem guardado da era digital. Nesta semana, o New York Times publicou uma investigação de fôlego que, pela primeira vez, aponta um candidato com base em um conjunto denso e interligado de evidências.

O nome levantado pelo jornal é o de Adam Back, criptógrafo britânico radicado em Malta, fundador da Blockstream e inventor do Hashcash — o sistema de prova de trabalho que está na fundação técnica do Bitcoin. Back é uma das figuras mais influentes do universo cripto e há anos figura entre os principais suspeitos de ser Satoshi, ainda que sem escrutínio jornalístico aprofundado.

Imagem da reportagem do NYC sobre Satoshi Nakamoto.
Reportagem sobre Satoshi Nakamoto no NYT.

“Raramente circunstâncias se acumularam de forma tão eloquente em torno de um único nome.”

Os indícios

O repórter responsável pela investigação passou 18 meses mergulhado em arquivos da lista de discussão dos Cypherpunks, nos e-mails trocados entre Satoshi e colaboradores no período de 2008 a 2010, e em registros do processo judicial movido contra Craig Wright — o australiano que alegava ser o criador do Bitcoin e foi derrotado na corte londrina.

Linguagem — Mais de cem expressões e construções raras presentes nos textos de Satoshi foram encontradas nos escritos de Back datados dos anos 1990.

Conceitos — Entre 1997 e 1999, Back descreveu em fóruns os cinco pilares conceituais do Bitcoin — uma década antes de o sistema existir.

Técnica — O Hashcash, criado por Back em 1997, é citado no white paper de Satoshi e integra o mecanismo de mineração do Bitcoin.

Anonimato — Back desenvolveu sistemas de navegação anônima e escreveu extensamente sobre pseudônimos como ferramenta de proteção — exatamente como Satoshi operou.

Comportamento — Em documentário da HBO de 2024, Back ficou visivelmente desconfortável ao ser questionado sobre o tema e pediu que a conversa fosse mantida fora do registro. Outro ponto, é que ele foi para Malta.

A escolha de Adam Back por Malta não é trivial. O pequeno arquipélago mediterrâneo combina tributação favorável, regulação cripto entre as mais progressistas da Europa e discrição institucional, um conjunto de atributos que, nos últimos anos, atraiu uma geração de empreendedores e investidores de alto patrimônio que preferem administrar sua riqueza longe do alcance de Estados fiscalmente agressivos.

O conceito do Indivíduo Soberano — popularizado pelo livro homônimo de James Dale Davidson e William Rees-Mogg, publicado em 1997 e leitura obrigatória em círculos Cypherpunk — descreve um tipo de pessoa capaz de desacoplar sua riqueza e sua identidade da jurisdição em que nasceu. Alguém que, em vez de se submeter às regras do Estado-nação onde cresceu, escolhe deliberadamente onde viver, onde guardar seu patrimônio e sob quais leis operar.

Para os autores, o advento do dinheiro digital seria o catalisador definitivo dessa transição. Quem controlasse ativos que nenhum governo pudesse confiscar ou rastrear teria, pela primeira vez na história, soberania econômica real.

O limite da prova

Nenhuma das evidências reunidas constitui prova definitiva. No universo Bitcoin, existe consenso de que apenas uma demonstração é incontestável: mover as moedas originais de Satoshi, que permanecem intocadas desde 2010. Qualquer argumento que não passe por esse teste é, por definição, circunstancial.

Back nega ser Satoshi. Em emails produzidos durante o processo judicial contra Craig Wright, ele demonstrou ter sido contatado por Satoshi em agosto de 2008 o que, em tese, provaria que eram pessoas distintas. O repórter do Times, porém, considera essa possibilidade insuficiente para descartar Back: os e-mails poderiam ter sido enviados pelo próprio Back a si mesmo como medida de cobertura.

A investigação não encerra o debate. Mas eleva o padrão do que se exige de qualquer teoria sobre a identidade de Satoshi e coloca Adam Back, de forma irreversível, no centro dessa conversa.

Para nós, se Satoshi é Adam Back ou não, é importante notar que Adam Back, além de ter Bitcoins e uma companhia bilionária, foi para Malta para pagar menos impostos. É uma lição vinda de um indivíduo soberano.

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