Com conflitos no Oriente Médio, venda de bunkers nos EUA aumenta em 10x

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Em Sulphur Springs, cidade de menos de 20 mil habitantes no interior do Texas, Ron Hubbard, 63 anos, fundador da Atlas Survival Shelters, não está conseguindo atender toda a demanda. Desde que os EUA e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro, os pedidos de bunkers subterrâneos em sua empresa multiplicaram por dez.

“O respeito e a demanda pelo produto estão em um nível histórico que eu nunca vi antes”, disse Hubbard à AFP no escritório da empresa.

A maior parte dos pedidos novos vem de clientes no Golfo Pérsico: Bahrein, Catar, Kuwait e, principalmente, Emirados Árabes Unidos. Dubai, cidade que aparecia nas matérias de viagem como destino de luxo até semanas atrás, está sendo atingida regularmente por mísseis iranianos.

“Para quem diz ‘esses americanos loucos comprando abrigos’, eles não estão mais dizendo isso, porque estão vendo que um país como Dubai está sendo bombardeado dia após dia”, disse Hubbard à AFP.

Mas o medo não é exclusivo do Oriente Médio. Americanos também estão comprando. Na semana passada, um cliente da Flórida ligou para Hubbard pedindo um abrigo para dez pessoas. O motivo: mísseis iranianos atingindo alvos americanos na região e a possibilidade crescente de retaliações em solo americano.

Dois membros do gabinete de Trump estão na fila

Em entrevista ao The Telegraph, Hubbard revelou que pelo menos dois secretários do governo Trump estão entre seus clientes recentes. Um deles enviou uma mensagem de texto perguntando quando o bunker estaria pronto. Hubbard não divulgou os nomes, mas o detalhe em si diz algo sobre o nível de apreensão nos círculos mais próximos do poder.

O catálogo da Atlas vai de abrigos básicos contra tornados, a partir de US$ 200 mil, até complexos subterrâneos de até US$ 5 milhões, com piscinas, cinemas, arsenais e campos de tiro. Por dentro, os modelos mais sofisticados se parecem com apartamentos completos: sala de estar, cozinha, quarto, lavanderia e banheiro. A porta principal sela hermeticamente e há uma câmara de descontaminação na entrada, onde os ocupantes podem se lavar caso tenham sido expostos a ambientes contaminados. O sistema de ventilação pode ser operado manualmente por uma manivela se a eletricidade falhar.

No pátio da fábrica, cerca de vinte bunkers aguardavam envio. Outros quarenta estavam em produção.

Veja abaixo um vídeo de um dos bunkers de luxo construídos pela Atlas Survival Shelters.

A Atlas vinha faturando em média US$ 2 milhões por mês em 2026. Hubbard disse ao The Telegraph que esse número pode chegar a US$ 50 milhões no próximo mês. A projeção que ele fez à AFP é ainda mais reveladora sobre o ritmo da demanda: “Espero que minhas vendas nos próximos dois meses superem os três anos anteriores. Mas vai me levar dois ou três anos para produzir todos os abrigos que vou vender nesses dois meses.”

CEOs, bilionários e o Vale do Silício

A corrida por bunkers não começou com essa guerra. Hubbard revelou à Business Insider que frequentou o Mar-a-Lago no ano passado para vender seus produtos para um público que ele descreve como “CEOs cristãos e conservadores.” Mas o perfil de comprador nunca foi exclusivo desse grupo.

Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, disse ao The New Yorker em 2017 que estimava que mais da metade de seus pares bilionários do Vale do Silício havia comprado algum tipo de refúgio de fim do mundo. Hubbard confirmou à Business Insider que é seguro assumir que a maioria dos bilionários já tem algum tipo de abrigo.

Entre os mais comentados: relatórios de 2023 indicavam que Mark Zuckerberg estava construindo um abrigo subterrâneo de cerca de 4.500 pés quadrados em sua propriedade privada no Havaí. Em uma entrevista à Bloomberg em dezembro passado, Zuckerberg minimizou, descrevendo o espaço como área de armazenamento e abrigo contra furacões.

O que esses números dizem

Bunkers são um termômetro incomum, mas preciso, do nível de medo entre quem tem dinheiro para agir sobre esse medo. Não são compras impulsivas. Custam entre US$ 200 mil e US$ 5 milhões, levam meses para ser entregues e exigem obras de instalação. Quando as vendas multiplicam por dez em duas semanas, o sinal é claro.

Para quem pensa em soberania pessoal e proteção patrimonial, o fenômeno dos bunkers ilustra um ponto mais amplo: a preservação de capital em cenários extremos não passa apenas por ativos financeiros. Passa por acesso, mobilidade e, para uma parcela crescente de pessoas com recursos, por literalmente ter um lugar seguro para onde ir — seja um segundo passaporte, residência em outro país, ou, no limite, um abrigo subterrâneo no Texas.

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