Enquanto o regime do Irã é bombardeado, o povo iraniano foge para o Bitcoin

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Logo após os primeiros mísseis atingirem o Irã, um movimento interessante dos cidadãos iranianos foi percebido pela empresa de análise de dados cripto Elliptic. Foi percebido na maior exchange de criptomoedas do país, a Nobitex, um aumento de 700% de saques em questão de horas.

Não foi apenas volatilidade de mercado ou especulação. Foi fuga de capital em tempo real. O espaço aéreo fechou, o “líder Supremo” foi eliminado logo no primeiro dia de ataque, em certo ponto a internet caiu no país inteiro. Alguns foram rápidos em perceber que ficar no sistema bancário não seria seguro.

A fuga de capital e o colapso do rial

De acordo com dados da Elliptic, uma grande parte dos saques da Nobitex foram direcionados a exchanges estrangeiras que historicamente já recebiam fluxos vindo do Irã. Como as restrições bancárias e sanções internacionais já afetavam a população, o caminho alternativo das criptomoedas já era utilizado antes mesmo desta guerra começar.

Essa não foi a primeira vez que iranianos tiraram dinheiro do país via Bitcoin. No início do ano, quando os protestos internos contra o regime de Ali Khamenei aumentaram e houve blecaute de internet, uma similar saída de recursos foi percebida.

Mesmo com o site da exchange fora do ar, alguns fluxos continuaram — o que levanta uma pergunta incômoda: quem mantém acesso operacional em momentos de apagão? Outros dois picos coincidiram com anúncios de novas sanções americanas. Em todos os casos, o comportamento foi o mesmo: quando o risco político sobe, a busca por ativos fora do alcance estatal aumenta.

“As saídas representam potencialmente uma fuga de capitais que contorna o sistema bancário tradicional”, afirmou o cofundador da Elliptic, Dr. Tom Robinson. A frase é técnica, mas o fenômeno é simples: indivíduos tentando proteger o fruto do próprio trabalho.

Enquanto isso, o mercado global reagia ao choque geopolítico. O Bitcoin caiu de aproximadamente US$ 67 mil para abaixo de US$ 64 mil em minutos, uma queda próxima de 5%. A capitalização total do mercado cripto encolheu cerca de US$ 128 bilhões, pressionada por liquidações automáticas em cascata.

A recuperação veio tão rápido quanto a queda. No momento da escrita deste artigo, o Bitcoin voltou a negociar acima de US$ 68 mil novamente. Quando comparamos o BTC com o rial iraniano, o preço do Bitcoin não caiu: ele aumentou massivamente porque a moeda local despencou em valor.

O analista Thomas Probst, da Kaiko, atribuiu o movimento recente a uma reação “mais contida do que o esperado”. Mas, além da volatilidade, o episódio reforça um ponto estrutural: em cenários de guerra, sanções e controle de capitais, ativos digitais se tornam mais do que instrumentos especulativos. Tornam-se uma rota de saída.

Quando governos entram em conflito, moedas nacionais e sistemas bancários ficam expostos. Já as redes descentralizadas continuam operando 24 horas por dia, sem fronteiras e sem necessidade de autorização política. Para milhões de pessoas sob regimes fechados ou sob risco de instabilidade, isso não é apenas teoria, é uma ferramenta prática de autopreservação.

Atualização: novos dados on-chain sobre movimentação de criptomoedas no Irã

Na terça-feira (03/03) a Chainalysis publicou que dados on-chain mostraram US$ 10,3 milhões em saques de criptomoedas das principais exchanges do Irã entre 28/02 e 02/03, após os ataques aéreos dos EUA e Israel. Ou seja, a Chainalysis reforça a tese de que os cidadãos usaram o Bitcoin e outras criptomoedas para proteger seu capital durante o conflito.

“Uma explicação é consistente com o que observámos durante as recentes ondas de protestos: usuários comuns sacando seus ativos de exchanges centralizadas para custódia própria como proteção contra a instabilidade. As carteiras de criptomoedas com custódia própria oferecem segurança e liquidez, além de preservarem a opcionalidade.”

No entanto, a empresa de análise levantou outras hipóteses. “As empresas de criptomoedas em jurisdições sancionadas, como o Irã, transferem regularmente fundos para novas carteiras para ocultar a sua atividade na blockchain, sabendo que, devido às sanções abrangentes, a identificação das suas carteiras torna mais difícil o acesso à liquidez dos principais mercados de criptomoedas.”, escreveu a Chainalysis na sua publicação. Ou seja, parte da movimentação pode ser das próprias corretoras.

E, por último, uma terceira hipótese ainda mais desagradável. Agentes ligados ao Estado, como o grupo terrorista Hamas, o Banco Central iraniano sancionado pela OFAC e a própria Guarda Revolucionária Islâmica podem ser responsáveis por também aumentar esse fluxo de saída das corretoras, potencialmente por retirar fundos ligados à evasão de sanções e negócios ilícitos.

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