Falsos policiais invadem casa de casal e levam R$ 5,4 milhões em Bitcoin

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Era pouco depois das 8h quando três homens encapuzados, enluvados e vestidos de preto tocaram a campainha de uma casa em Le Chesnay-Rocquencourt, uma comuna francesa. Eles disseram ser policiais.

A moradora, uma mulher de 59 anos, abriu a porta. Foi imediatamente derrubada ao chão e sofreu uma lesão no ombro. Os três homens de preto invadiram a casa, subiram ao andar de cima e encontraram o companheiro dela, de 58 anos, em seu escritório. Um dos agressores sacou uma faca e ameaçou atacar a mulher se o homem não transferisse suas criptomoedas para uma carteira que eles controlavam.

Ele obedeceu. O equivalente a 900 mil euros — aproximadamente R$ 5,4 milhões — em Bitcoin foi enviado. Confirmada a transferência, os agressores imobilizaram as vítimas no sofá, amarraram o homem e fugiram em um veículo. O casal acionou os serviços de emergência logo em seguida.

A informação foi confirmada à AFP pelo parquet de Versalhes, que abriu inquérito por sequestro em associação criminosa, roubo à mão armada em bando e formação de quadrilha. A investigação foi confiada à Brigade de répression du banditisme (BRB), unidade especializada da polícia judiciária francesa. Nenhuma prisão havia sido realizada até o momento da publicação desta matéria.

Um padrão que se repete

O caso não é isolado. A França registra uma onda crescente de ataques físicos contra detentores de criptoativos desde o início de 2025, fenômeno que ficou conhecido internacionalmente como “wrench attack” — ataques de chave inglesa, em referência ao uso de violência física em vez de invasão técnica para roubar ativos digitais.

Entre os casos mais graves: em janeiro de 2025, o cofundador da Ledger, David Balland, foi sequestrado e teve um dedo amputado antes de ser libertado por uma operação do GIGN. Em dezembro de 2025, um grupo armado roubou quase 8 milhões de euros em cripto de um casal próximo a La Rochelle. Em janeiro de 2026, um investidor e sua família foram amarrados e agredidos em Verneuil-sur-Seine, também nas Yvelines. Em fevereiro de 2026, tentaram sequestrar a filha e o neto do CEO de uma empresa de cripto em plena rua, em Paris.

Em agosto de 2025, o fenômeno tornou-se suficientemente grave para que o governo francês publicasse um decreto permitindo que investidores profissionais omitissem seus endereços residenciais do Registro de Comércio — medida diretamente relacionada à preocupação de que dados públicos estejam sendo usados para identificar e localizar alvos. Autoridades policiais francesas suspeitam que parte dessas operações é facilitada por vazamentos de dados de aplicativos de gestão de criptoativos.

Entre meados de 2023 e o fim de 2025, foram registrados pelo menos 40 incidentes organizados de violência física contra detentores de cripto na França, segundo análise da imprensa especializada francesa.

O risco que a autocustódia não resolve sozinha

Ataques como este evidenciam uma dimensão do risco em cripto que não aparece nos gráficos de preço: a exposição pessoal que vem com a posse de ativos de alto valor e identidade verificável. A autocustódia em cold wallet protege contra exchanges hackeadas e confiscos remotos, mas não contra três homens à sua porta.

As precauções que especialistas de segurança operacional recomendam para detentores de patrimônio significativo em cripto incluem: não revelar publicamente o volume de holdings, evitar mencionar endereços físicos em qualquer contexto ligado à identidade cripto, usar estruturas jurídicas que separem nome do endereço residencial, e manter discrição ativa — o que os profissionais de segurança chamam de “opsec” (operational security).

O caso de Le Chesnay ainda está sob investigação. Os suspeitos permanecem foragidos.

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