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Em 2025, o volume anual de transações com stablecoins chegou a US$ 33 trilhões, superando pela primeira vez a soma de Visa e Mastercard combinadas. O mercado saiu de US$ 5 bilhões em capitalização em 2020 para US$ 312 bilhões ao final do ano passado, crescimento de 60 vezes em cinco anos.
O relatório State of Stablecoins 2026, publicado pela Morph em março, reúne dados de Artemis Analytics, Citi, EY-Parthenon e Bloomberg para traçar o estado atual dessa infraestrutura. Os números são impressionantes. O que eles dizem sobre quem controla essa infraestrutura é igualmente relevante.
A maior parte da narrativa sobre stablecoins ainda as associa ao trading especulativo. Os dados contradizem isso. Segundo o relatório, pagamentos B2B entre empresas saíram de menos de US$ 100 milhões mensais em 2023 para mais de US$ 6 bilhões por mês em 2025. Hoje representam cerca de 60% de todo o volume de stablecoin identificável na economia real, estimado em US$ 390 bilhões anuais.
Imagine o seguinte exemplo: uma fatura enviada do Vietnã para a Alemanha pelo sistema SWIFT passa por três a cinco bancos correspondentes, leva de três a cinco dias para liquidar e consome de 1,5% a 3% do valor em taxas. Via stablecoin, a mesma transação liquida em menos de cinco segundos, a custo abaixo de 0,1% do valor, tudo resolvido por carteiras digitais.
| SWIFT Wire legado | Liquidação por Stablecoin | |
| Tempo de liquidação | 3 a 5 dias | Menos de 5 segundos |
| Taxas | 1,5 a 3% por transação | Menos de 0,1% |
| Intermediários | 3 a 5 bancos correspondentes | Liquidação on-chain direta |
| Transparência | Sem visibilidade até a liquidação | Rastreio on-chain em tempo real |
Para remessas menores, como um trabalhador migrante enviando US$ 47 para familiares, a diferença é ainda mais dramática, porque as taxas fixas do sistema tradicional consomem uma fatia desproporcional do valor enviado.
A EY-Parthenon encontrou que 41% das empresas que já usam stablecoins relatam economia de custo de pelo menos 10%. E 54% das organizações que ainda não adotaram planejam fazê-lo nos próximos seis a doze meses. O relatório projeta que o volume anual de liquidação ultrapasse US$ 50 trilhões ainda em 2026.
O mercado de stablecoins não é plural na prática. USDT (Tether) e USDC (Circle) juntos representam mais de 85% de toda a oferta em circulação. O USDT lidera com cerca de US$ 157 bilhões e 60% do mercado — dominante nos corredores de mercados emergentes e no trading. O USDC tem US$ 75 bilhões e 25%, e cresceu 78% ao longo de 2025, impulsionado por preferência institucional por transparência e conformidade regulatória.
O IPO da Circle na NYSE em junho de 2025, com negociações pausadas múltiplas vezes no primeiro dia por excesso de demanda institucional, foi o sinal mais visível de que stablecoin deixou de ser produto cripto e virou categoria de infraestrutura financeira.
O restante do mercado é fragmentado: USDe da Ethena com US$ 13 bilhões, DAI/USDS do Sky Protocol com US$ 9 bilhões, e outros instrumentos menores. O relatório aponta que USDT e USDC respondem por 85% do volume de empréstimos em stablecoin, o que cria risco de concentração que o próprio documento reconhece como análogo ao de qualquer posição de contraparte concentrada em finanças tradicionais.
Stablecoins são, na maioria das vezes, versões digitais de moedas estatais. O crescimento acelerado do mercado é, na prática, expansão da dolarização global via infraestrutura blockchain.
O relatório da Morph cita a previsão de que até 2028 a primeira economia emergente adotará uma stablecoin privada como moeda legal ao lado da sua moeda nacional, e que sub-regiões da África Subsaariana e da América Latina já registram stablecoins respondendo por mais de 20% de todas as transações digitais.
Para economias com moedas fracas e inflação crônica — e o Brasil conhece esse fenômeno de perto — isso pode ser interpretado como proteção individual contra a desvalorização. É uma ferramenta de soberania financeira pessoal. Mas é também a substituição da soberania monetária do Estado-nação por uma infraestrutura controlada por duas empresas privadas americanas, ambas sujeitas à regulação do governo dos EUA.
O GENIUS Act, assinado em lei nos EUA em julho de 2025, formaliza essa estrutura. Stablecoins são classificadas como instrumentos de pagamento, não como títulos nem commodities — o que remove o escrutínio da SEC e da CFTC.
Mas o mesmo ato proíbe explicitamente o pagamento de rendimento em stablecoins de pagamento, o que explica por que JPMorgan criou o MONY, fundo tokenizado que contorna essa restrição oferecendo rendimento via estrutura de depósito, não via stablecoin direta. A regulação resolve a ambiguidade jurídica que mantinha instituições na margem. E simultaneamente cristaliza quem manda.
O relatório não poupa a Tether de crítica. A S&P Global rebaixou a nota de estabilidade do USDT em fins de 2025, citando a exposição ao Bitcoin nas reservas — uma prática que contraria o modelo de reservas em dólar ou T-Bills exigido pelo GENIUS Act para emissores americanos. A análise do JPMorgan de 2024, citada no documento, apontava a falta de transparência do Tether como risco crescente de mercado.
Mais recentemente, a Tether lançou a USAT para cumprir as exigências do GENIUS Act, enqunto mantém a USDT com adoção global e reservas mais flexíveis, divulgadas na página de transparência do site. Atualmente, Bitcoin compõe 4,37% das reservas do USDT, enquanto a maior parte é composta por tesouro americano e outros depósitos de curto prazo.