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O mercado de petróleo passou as últimas duas semanas tentando precificar o quanto da produção do Golfo Pérsico ficaria bloqueada pelo fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa normalmente cerca de 20% da oferta global de petróleo.
Na manhã desta segunda-feira, 16 de março, o WTI abriu perto de US$ 99 por barril — mais de 50% acima dos cerca de US$ 65 em que estava antes dos ataques americanos e israelenses ao Irã em 28 de fevereiro. Nas quatro horas seguintes, o preço derreteu para US$ 93,95, uma queda de 1,66% em relação ao fechamento anterior, mas de quase 5% em relação à abertura do dia.
O gatilho foi uma entrevista de Scott Bessent, secretário do Tesouro americano, ao CNBC em Paris, onde ele está para negociações comerciais com a China. “Os navios iranianos já estavam saindo, e nós deixamos isso acontecer para abastecer o resto do mundo“, disse Bessent. “Achamos que haverá uma abertura natural que os iranianos estão permitindo, e por ora estamos bem com isso. Queremos que o mundo seja bem abastecido.”
A declaração quebrou a narrativa de bloqueio total. O mercado havia precificado um cenário de colapso de oferta; Bessent sinalizou que Washington está, por ora, tolerando um fluxo seletivo — iraniano, indiano, chinês — como válvula de pressão.
O Estreito está longe de normalizado. A IEA classifica a situação como essencialmente paralisada: ao menos 16 navios foram atacados desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, e mais de 150 embarcações permanecem ancoradas fora da zona de risco. O que existe até agora é passagem seletiva negociada bilateralmente — não reabertura.
O chanceler iraniano Abbas Araghchi disse no fim de semana que “o Estreito de Ormuz está aberto, fechado apenas para navios dos nossos inimigos e de quem nos ataca. Outros são livres para passar.” Na prática, o Irã está usando o controle do estreito como moeda de troca com países que dependem do petróleo do Golfo.
A Índia liberou três tankers iranianos retidos para garantir travessia de dois navios indianos com gás liquefeito. Um tanker paquistanês passou no domingo. O Aframax Karachi, com petróleo bruto de Abu Dhabi, foi o primeiro carregamento não iraniano a transitar desde o início do conflito.
Além de confirmar a tolerância ao fluxo seletivo, Bessent disse que os preços do petróleo deveriam cair “muito abaixo de US$ 80 por barril” após o fim da guerra, acrescentando que “o mundo será mais seguro e estará melhor abastecido”. Ele também descartou rumores de mercado de que o governo poderia intervir no mercado de futuros de petróleo.
A IEA classificou a crise como potencialmente a maior disrupção de oferta na história do mercado global de petróleo. O Brent opera em torno de US$ 102; o WTI fechou a manhã em US$ 93,95.
Trump pediu ao longo do fim de semana que países como China, França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido enviassem navios de guerra para ajudar a proteger o estreito. Alemanha e Grécia descartaram participação militar.
O Reino Unido evoluiu na posição: o primeiro-ministro Keir Starmer disse nesta segunda-feira que o país trabalhará com aliados em um “plano coletivo viável” para reabrir o estreito e confirmou que sistemas britânicos de caça a minas já estão posicionados na região. Starmer recusou-se a permitir o uso de bases britânicas para atacar o Irã, mas autorizou uso defensivo.
Trump criticou Starmer publicamente pela demora em oferecer apoio. A Casa Branca justificou o pedido de colaboração externa argumentando que outros países “estão se beneficiando enormemente” das ações militares americanas contra o Irã.
Bessent explicitamente pediu aos investidores que não reagissem negativamente caso Trump adiasse sua visita à China, acrescentando que qualquer atraso não seria resultado de disputas sobre o estreito.
A queda do petróleo desta manhã não é o fim da crise, é o mercado ajustando sua estimativa de pior caso. Enquanto o Estreito funcionar como corredor diplomático seletivo, a oferta global não colapsa. Quando, e se, esse arranjo informal se desfizer, os preços possivelmente voltam a subir.
Em meio ao mesmo cenário geopolítico, o Bitcoin opera na contramão do petróleo. Nesta segunda-feira, o BTC subiu cerca de 4%, alcançando US$ 74,3 mil, superando pela primeira vez em dois meses a média móvel de 50 dias.
Desde o início do conflito, o ouro caiu cerca de 2% enquanto o Bitcoin subiu aproximadamente 12%. As entradas líquidas nos ETFs de Bitcoin à vista nos EUA ultrapassaram US$ 763 milhões na semana passada.
Para Fabio Plein, diretor regional para as Américas da Coinbase, o movimento reflete algo mais estrutural: “O mercado de criptomoedas está absorvendo os choques macroeconômicos, em vez de passar por um ciclo generalizado de desalavancagem por aversão ao risco.” A leitura é consistente com o que os dados mostram, num cenário de guerra prolongada e incerteza sobre o dólar, parte do capital que antes corria para o ouro está encontrando caminho para o Bitcoin.