Imposto de saída: o pedágio que o Estado quer cobrar da sua fuga do Brasil

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Existe uma ideia circulando em Brasília que trata a sua ida embora como um crime a ser multado. O nome técnico é imposto de saída. A lógica é grosseira: no dia em que você transfere a residência fiscal para fora do Brasil, o Fisco finge que você vendeu tudo o que possui e cobra imposto sobre um lucro que jamais entrou no seu bolso. Você não vendeu nada, não realizou ganho nenhum, mas paga como se tivesse liquidado o patrimônio inteiro. É o Estado transformando a porta de saída em cancela de pedágio.

Isso não é boato de grupo de Telegram. Em julho de 2025 o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada publicou uma Carta de Conjuntura defendendo exatamente esse mecanismo. O documento está aberto para quem quiser ler na íntegra da nota do IPEA.

O que o IPEA colocou na mesa

O estudo trata da tributação dos mais ricos e, no meio do caminho, ataca aquilo que o autor enxerga como um risco: o sujeito abastado arrumar as malas e levar o patrimônio para outra jurisdição. A resposta proposta vem em duas frentes.

A primeira é o imposto de saída propriamente dito: uma cobrança de 25% sobre o ganho de capital ainda não realizado de quem muda de domicílio fiscal. Como alternativa a essa alíquota, o texto cita uma tributação de 3% sobre o patrimônio. Não é uma escala que vai até 25%. É a cobrança cheia sobre a valorização que existe apenas no papel.

A segunda frente é uma corrente de cinco anos amarrada ao seu tornozelo. O estudo sugere manter as obrigações tributárias por pelo menos cinco anos após a mudança de domicílio, mirando quem foge para países que abrem os braços para milionários. O documento aponta Suíça, Itália, Grécia, Argentina e Uruguai como exemplos desses destinos que o Estado brasileiro gostaria de neutralizar. Traduzindo: mesmo depois de sair, você continuaria preso à Receita por um lustro inteiro.

Antes que alguém torça os fatos

Vamos ser precisos, porque precisão é o que separa análise soberana de pânico vendido em curso online. Isso é um estudo técnico do IPEA, não uma lei e nem um projeto em tramitação. O IPEA pesquisa e empurra o debate, ele não legisla. O grande veículo da reforma que taxou as altas rendas, o PL 1.087, já foi sancionado e entrou em vigor em 2026 sem nenhum imposto de saída no texto. Hoje quem sai do país ainda encerra o vínculo pela Declaração de Saída Definitiva, sem pagar sobre estoque de patrimônio.

Ou seja, a cancela ainda não foi instalada. Mas a planta da cancela já foi desenhada, assinada e publicada por um órgão do próprio governo. Quem ignora isso não é otimista, é distraído.

Por que 2027 é a data que importa

A pergunta não é se a ideia existe, e sim quando ela ganha força de lei. O tributarista Guilherme Bauer avalia que a conjuntura política atual abre uma janela concreta para esse cenário sair do papel a partir de 2027. A leitura dele acompanha o vídeo do canal Capital Global, que dissecou o tema e vale o seu tempo:

O Estado brasileiro tem fome de arrecadação, corre atrás do alinhamento com as práticas da OCDE e enxerga a mobilidade do cidadão como escape a ser fechado, não como direito a ser respeitado. Quando a pressão fiscal encontra a vontade política, a distância entre carta de conjuntura e projeto de lei encurta rápido.

Leitura Soberana

A mensagem central deste episódio não está na alíquota, está no princípio. Um imposto de saída parte do pressuposto de que o seu patrimônio pertence primeiro ao Estado e só depois a você, e que o direito de ir embora precisa ser comprado de volta. Essa é a inversão que o soberano recusa.

Estrutura patrimonial não se levanta na véspera do embarque. Holding, alocação internacional de ativos e diversificação de jurisdição são movimentos que exigem tempo, e o tempo é justamente o que some quando a lei é publicada. Quem organiza a saída antes da cancela ser instalada define as próprias regras. Quem espera a legislação chegar só recebe a conta e assina o cheque.

O Brasil ainda não cobra pedágio na porta. A pergunta é se você vai planejar a sua rota enquanto ela está aberta, ou esperar sentado para descobrir o preço no dia em que quiser passar.

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