O Paraguai minerará Bitcoin com equipamentos confiscados

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O Paraguai encontrou uma solução para um problema que vinha crescendo há anos: o que fazer com os milhares de equipamentos de mineração de Bitcoin confiscados em operações contra o uso ilegal de energia?

A resposta da Administração Nacional de Eletricidade (ANDE), a estatal responsável pelo setor elétrico paraguaio é: minerar Bitcoin (BTC).

Como deve funcionar

Em 5 de março, a empresa americana Morphware, especializada em infraestrutura digital e mineração de criptomoedas, anunciou a assinatura de um Memorando de Entendimento (MOU) com a ANDE.

O acordo estabelece um marco formal de cooperação para desenvolver iniciativas ligadas a ativos digitais, infraestrutura de processamento avançado e oportunidades tecnológicas estratégicas vinculadas à energia paraguaia.

A parceria inclui especificamente a exploração da mineração de Bitcoin como oportunidade de escala nacional dentro da infraestrutura energética e digital do Paraguai.

O presidente da ANDE, eng. Félix Sosa, confirmou ao jornal local ABC Color que estão efetivamente trabalhando no projeto. O ponto de partida é um piloto com 1.500 ASICs, chips de alta eficiência projetados exclusivamente para mineração de Bitcoin, atualmente armazenados após terem sido apreendidos pela própria ANDE em operações contra consumidores ilegais de energia.

Por que o Paraguai está numa posição única

O Paraguai é um dos países com energia elétrica mais barata do mundo. A razão é geográfica e política: o país co-administra a Usina de Itaipu com o Brasil, e sua cota de geração é muito maior do que o consumo interno nacional.

O excedente de energia, que historicamente era vendido a preços baixos para o Brasil via contrato, virou uma oportunidade para a mineração de Bitcoin.

Não é por acaso que o Paraguai responde hoje por 4% de toda a mineração de Bitcoin do mundo, segundo dados do Hashrate Index, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, Rússia e China. A mineração legal privada já equivale, segundo a própria ANDE, a 1,4 unidades de Itaipu em consumo.

O problema é que junto com o crescimento da mineração legal veio o da ilegal. Operações clandestinas que furtavam energia da rede, sobrecarregando a infraestrutura da ANDE e gerando prejuízos ao sistema. As apreensões de equipamentos se acumularam, e agora esses mesmos equipamentos serão o ativo inicial do projeto estatal.

O Paraguai deve vender Bitcoin

Um detalhe importante do projeto: o governo paraguaio não pretende acumular Bitcoin. A estratégia, segundo as fontes, é fazer um hedge no mercado de futuros — vender antecipadamente o BTC que será produzido para fixar o preço e eliminar o risco de volatilidade.

Na prática, isso trata a operação como uma venda de eletricidade em outro formato: em vez de exportar energia bruta, o Paraguai a converte em Bitcoin e vende o resultado. O risco de preço fica fora da equação; o que sobra é a margem operacional de usar energia barata para produzir um ativo globalmente negociado.

Kenso Trabing, fundador e CEO da Morphware, descreveu a lógica da seguinte forma: reimplantar mineradores em sites controlados pela concessionária transforma eletricidade ociosa em computação produtiva que serve simultaneamente à rede Bitcoin e à economia digital global.

A corrida estatal pelo Bitcoin

O Paraguai não está sozinho. O que está acontecendo em Assunção faz parte de um movimento mais amplo: governos ao redor do mundo estão descobrindo que Bitcoin é um ativo estratégico que vale a pena acumular (ou pelo menos não descartar).

Por enquanto, os Estados Unidos lideram com folga. O governo federal americano acumulou cerca de 328.000 BTC — a maior reserva estatal conhecida no mundo — principalmente através de confiscos em casos criminais como o da Silk Road e o hack da Bitfinex.

Em março de 2025, Trump formalizou isso com a criação da Strategic Bitcoin Reserve, determinando que esses BTC sejam custodiados permanentemente em vez de leiloados, como era prática anterior.

El Salvador foi pelo caminho mais direto e adotou o Bitcoin como moeda de curso legal em 2021, e vem comprando sistematicamente desde então. O país mantém hoje cerca de 7.500 BTC em reserva. E apesar das pressões do FMI para abandonar a política, El Salvador manteve a direção bitcoiner.

Butão é um caso mais silencioso. O pequeno reino himalaia começou a minerar Bitcoin anos atrás usando o excedente de sua abundante geração hidrelétrica, por meio do fundo soberano Druk Holding and Investments. Sem anúncios, só mineração contínua. O resultado: aproximadamente 13.000 BTC acumulados, equivalentes a mais de 28% do PIB do país. É o modelo mais próximo do que o Paraguai está tentando construir agora.

A China, curiosamente, é o segundo maior detentor governamental de Bitcoin do mundo, não por escolha estratégica declarada, mas por confisco. Estima-se que o governo chinês controle cerca de 190.000 BTC apreendidos principalmente do esquema de pirâmide PlusToken. O destino desses ativos nunca foi divulgado com clareza.

O Reino Unido tem aproximadamente 61.000 BTC apreendidos de um caso de lavagem de dinheiro. A Ucrânia recebeu doações em Bitcoin e Ethereum após ser invadida pela Rússia. O Irã vai mais longe: por lei, mineradores licenciados são obrigados a vender sua produção diretamente ao Banco Central, que usa a criptomoeda para contornar sanções em transações internacionais.

Paquistão anunciou em 2026 a criação de uma reserva estratégica de Bitcoin, com planos que incluem mineração usando energia excedente. Ainda em estágio inicial, mas com intenção declarada.

E o Brasil? Existe o PL 4501/2024, que propõe uma Reserva Estratégica Soberana de Bitcoins (RESBit) alocando até 5% das reservas internacionais brasileiras em BTC. No entanto, a proposta está parada sem muita expectativa de aprovação. O Banco Central avança na regulamentação cripto, mas na direção do controle, não da acumulação. Enquanto o Paraguai transforma equipamentos confiscados em mineração estatal, o Brasil debate se deve ou não regular a custódia de ativos digitais.

O padrão que emerge dessa lista é claro: países com energia barata e excedente estão minerando (Butão, Paraguai, Paquistão). Países com apreensões volumosas estão decidindo não vender (EUA, Reino Unido, China). E pioneiros ideológicos continuam comprando (El Salvador). São três caminhos diferentes chegando ao mesmo lugar: Bitcoin no balanço do Estado.

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