Petróleo a US$ 100, bolsas em queda e o Bitcoin subindo. O que está acontecendo?

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No domingo, 8 de março, o petróleo ultrapassou US$ 100 o barril pela primeira vez desde a invasão russa da Ucrânia em 2022. Na manhã desta segunda-feira (9), o Brent chegou a US$ 108, e o petróleo americano atingiu US$ 115.

O contexto é a escalada militar entre EUA, Israel e Irã, iniciada em 28 de fevereiro. O Irã fechou o Estreito de Ormuz, rota por onde transita aproximadamente 20% de todo o petróleo mundial.

Refinarias na região foram atingidas por ataques israelenses, e países como UAE e Kuwait já reduziram produção. O choque de oferta é descrito por analistas como o mais agudo em décadas.

Em resposta à alta dos preços, o presidente Trump afirmou no Truth Social que se trata de um “pequeno preço a pagar” pela segurança global, projetando que os preços “cairão rapidamente” após o fim do conflito.

Preço do petróleo
Preço do petróleo, dados do Investing.com

A reação dos mercados tradicionais

A abertura dos mercados nesta segunda-feira refletiu o clima de incerteza. Nasdaq 100 e S&P 500 caíram mais de 1,5%. O ouro, historicamente procurado como reserva de valor em momentos de crise, recuou 1,6%. A prata cedeu 1,1%. O dólar americano se valorizou frente às principais moedas, movimento típico de períodos de aversão ao risco.

O cenário coloca os bancos centrais numa posição delicada. Energia mais cara pressiona a inflação, que já era um desafio antes do conflito. Manter juros elevados para conter essa pressão, por outro lado, reduz a liquidez global e pesa sobre o crescimento econômico. O Banco Central Europeu alertou que um conflito prolongado pode combinar inflação mais alta com crescimento mais fraco, um dos cenários mais difíceis para a política monetária.

O comportamento do Bitcoin

Enquanto ativos tradicionais recuavam, o Bitcoin registrou alta de 2,8% desde a meia-noite UTC desta segunda-feira, comportamento que chamou atenção de analistas do Coindesk, dado que o ativo costuma ser classificado como parte da classe de risco e tende a cair em momentos de aversão generalizada.

Não foi sempre assim neste ciclo. Quando os ataques ao Irã começaram, no final de fevereiro, o BTC chegou a cair abaixo de US$ 64 mil. A recuperação, porém, foi relativamente rápida, e desde então o Bitcoin tem se mantido na faixa dos US$ 67 a 70 mil, sem acompanhar a pressão de baixa observada nas bolsas.

Analistas apontam algumas hipóteses para explicar o comportamento:

  • Exposição americana ao mercado de petróleo. Os EUA são hoje exportadores líquidos de energia. Um choque de oferta no Oriente Médio tende a afetar de forma mais pronunciada a Europa e a Ásia do que a economia americana. O Bitcoin, cada vez mais negociado via ETFs listados nos EUA e com base institucional americana, pode estar se beneficiando dessa dinâmica assimétrica.
  • Fluxos para ativos descentralizados. Parte dos analistas observa movimentação de capital que, em crises anteriores, teria ido para o ouro, indo agora parcialmente para Bitcoin. A hipótese é que em momentos de tensão geopolítica intensa, uma parcela de investidores busca exposição a ativos fora do sistema financeiro convencional.
  • Alta nas criptomoedas de privacidade. Um dado adicional da sessão: Monero (XMR), Zcash (ZEC) e Dash subiram entre 4% e 5,2%, superando Bitcoin e Ethereum no período. O movimento é interpretado por alguns analistas como reflexo de maior interesse em ativos com características de privacidade e autonomia em períodos de instabilidade.

Os riscos à frente

A resiliência observada hoje não elimina os riscos de médio prazo. Se o conflito se prolongar e o petróleo se mantiver acima de US$ 100 por meses, o impacto inflacionário pode forçar uma postura mais restritiva dos bancos centrais, o que historicamente pressiona os ativos de risco de forma ampla, incluindo criptoativos.

Em 2022, quando o petróleo subiu acima de US$ 100 após a invasão da Ucrânia, o Bitcoin chegou a perder mais de 70% de seu valor ao longo do ano, num contexto de alta agressiva de juros pelo Fed. O ambiente atual tem semelhanças, mas também diferenças relevantes: a presença dos ETFs institucionais, o menor volume de BTC disponível nas exchanges e o nível de adoção corporativa e soberana são todos maiores do que em 2022.

Se o comportamento desta segunda representa uma mudança mais estrutural na correlação do Bitcoin com choques geopolíticos, ou se é uma resposta pontual antes de uma realinhamento com os ativos de risco, ainda é cedo para concluir.

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