Como ganhar dinheiro vendo o futuro? Entenda os mercados de previsão

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Existem ferramentas que podem ser usadas para prever o futuro com uma certa precisão. Porém, elas podem ser problemáticas. Entenda mais sobre os prediction markets neste vídeo:

Você já ouviu a expressão “se põe o dinheiro onde está a boca”? É mais comum no Reino Unido e nos EUA, e quer dizer que “se deve investir no que acredita”. Mas muitas vezes também é usada como uma provocação, “se você realmente acredita no que diz, então coloque dinheiro nisso”.

Quem não lembra de diversas apostas com carros, caminhonetes e caminhões publicadas no Youtube sobre quem ia ganhar as eleições de 2022?

Pode parecer um absurdo colocar tanto dinheiro na torcida da vitória do seu presidente. Mas uma coisa é certa: essas pessoas realmente estavam confiantes no resultado. Ninguém coloca dinheiro em risco sem convicção.

E é isso que faz os mercados de previsão (prediction markets) serem, na maioria das vezes, mais confiáveis que pesquisas de opinião. E não estou falando por puro achismo, existem estudos que indicam isso.

Chance de cada candidato ganhar eleições

Vamos pegar um exemplo real. O primeiro turno das eleições municipais de São Paulo de 2024. Enquanto em 12 de setembro o Datafolha mostrava Nunes com 27%, Boulos com 25% e Marçal com 19%. O PolyMarket apresentava chances de Nunes em 63%, o Marçal em segundo com 23% e Boulos em terceiro com 15%.

Mais perto da eleição, em um levantamento feito entre 3 e 5 de outubro pelo Datafolha, o Boulos tomava a primeira colocação com 29%, enquanto colocava o Nunes com 26%, empatado com Marçal.

Enquanto isso, o Polymarket ainda mostrava Nunes na liderança, com apostas indicando entre 40 e 53% de chance de vitória. Ainda com Marçal em segundo e Boulos em terceiro com não mais de 19 a 30%.

Isso antes de Nunes disparar para +80% e subir lentamente para 100% após o início das apurações no dia 6.

Mas por que houve essa diferença, e como o Polymarket chegou mais perto que as pesquisas eleitorais? Como o estudo que citei anteriormente diz:

Desde Hayek (1945), os economistas reconhecem que os mercados desempenham um papel duplo. Eles distribuem recursos e, através do processo de formação de preços, agregam informação sobre o valor desses recursos.

O papel de agregação de informação de alguns mercados parece particularmente evidente. Por exemplo, as empresas referem-se ao valor das suas ações cotadas em bolsa como o julgamento consensual dos seus proprietários sobre o valor das atividades da empresa […]

Similarmente, o mercado de previsão chega a um consenso das pessoas sobre a chance de determinados acontecimentos. E o custo de dar o seu palpite — o dinheiro “investido” — garante a convicção real dos participantes. Falar é de graça, mas apostar não.

“Devemos olhar para o sistema de preços como um mecanismo de comunicação de informações, se quisermos compreender sua verdadeira função(…). O fato mais significativo desse sistema é a economia de conhecimento com que ele opera, ou quão pouco os participantes individuais precisam saber para poderem tomar a ação correta(…) — F. A. Hayek.

Hoje, podemos usar o PolyMarket e o Kalshi para observarmos o que os apostadores esperam das próximas eleições, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. E os resultados não devem ser tão longe da realidade, justamente por estes princípios.

Apostadores na Kalshi prevendo maior chance de Flavio Bolsonaro do que Lula em 2026

Se você não tem informações, não aposte!

Outra diferença crucial do mercado de apostas para uma pesquisa de opinião qualquer, é que geralmente 1 pessoa representa 1 voto, enquanto no mercado a lógica é monetária: 1 real é 1 voto.

Ou seja, pessoas com uma convicção maior que a média, tendem a apostar mais. Ou, melhor dizendo, pessoas com mais informações tendem a apostar mais. Isso nos leva para os cenários onde claramente algumas pessoas têm mais conhecimento que outras.

Por exemplo, neste momento, tem gente apostando se o Neymar será ou não convocado para a seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2026.

Atualmente, a chance está em cerca de 30%, talvez por conta das lesões do Neymar ou algum outro motivo, que quem acompanha futebol vai saber melhor do que eu. Claramente existem pessoas com maior capacidade que eu para dar um bom chute se Neymar vai ou não jogar na Copa do Mundo.

Mas ninguém melhor do que o próprio Neymar ou o técnico da seleção para saber essa resposta.

Vamos dizer que, por uma hipótese, o Neymar não quisesse jogar a Copa do Mundo. Então mesmo se ele fosse convocado, ele poderia negar. Nesse caso, o jogador teria certeza que a aposta seria resolvida em “Não”. E sabendo dessa informação, qualquer pessoa apostando no “Sim” estaria dando dinheiro de graça para o Neymar, caso ele quisesse apostar contra.

No mercado tradicional, isso seria chamado de insider trading: um investimento feito com base em informação privilegiada. No mercado preditivo, isso não só não é proibido como é incentivado.

A própria ideia desse tipo de mercado é baseada em disponibilizar publicamente a melhor chance possível daquela coisa acontecer ou não. Então o sistema é desenhado para recompensar financeiramente quem tem mais informação, porque isso incentiva quem tem a informação a entregar ela.

“O objetivo desses mercados é ter informação, então a única razão pela qual você deve participar deles é se você acha que tem alguma informação”, disse Hanson, professor de Economia na George Mason University, cujos trabalhos acadêmicos inspiraram os fundadores da Polymarket e Kalshi. “Pessoas com mais informações devem apostar mais e ganhar mais dinheiro, porque é assim que elas são recompensadas pela informação que elas contribuíram.”

Outro exemplo onde claramente alguém sabe a resposta da aposta é quando criam mercados para apostar no que tal pessoa vai falar em algum discurso ou em algum determinado período.

Aposta: o que Trump falará essa semana?

Em uma aposta sobre o que Trump falará essa semana, o próprio Trump e possivelmente algumas pessoas da sua equipe já sabem a resposta. Para o mercado de apostas sobre quantos posts no Truth Social vão ser publicados na conta de Trump, a mesma coisa.

O engraçado é que, o próprio fato de existir um mercado sobre essas coisas, e consequentemente uma oportunidade de fazer dinheiro, pode influenciar o que vai acabar acontecendo. Um caso claro disso foi quando apostaram se o CEO da Coinbase iria falar as palavras “Bitcoin, Ethereum, Blockchain, Staking e Web3” em uma determinada chamada.

Cada termo era uma aposta diferente, que poderia ser resolvida entre “Sim” e “Não”. O resultado? O executivo citou a aposta e falou todos os termos, um atrás do outro, apenas para garantir que todas as apostas fossem concluídas em “Sim”.

Não ficou claro se o CEO da Coinbase ou algum conhecido dele colocou apostas nesse mercado específico, mas a mídia divulgou a história como uma “exposição da fragilidade do mercado de previsão”.

Os problemas éticos dos mercados de previsão

Isso soa inofensivo quando estamos falando do Neymar jogar ou não na Copa do Mundo, ou se algum assunto vai ou não ser falado essa semana. Mas começa a ficar problemático quando as apostas são sobre eventos mais sérios.

Neste momento, apostadores chutam se o grupo terrorista Hezbollah iniciará uma ação militar contra Israel nos próximos dias. As chances variam para cada dia de abril, indo de 86% a 96%. 

As regras dizem que o mercado será resolvido em “Sim” se o Hezbollah lançar um ataque com drones, mísseis ou aéreos que atinja território israelita na data especificada, hora padrão de Israel (UTC+2). Caso contrário, o mercado é resolvido em “Não”.

No topo da página, há uma nota: “A promessa dos mercados de previsão é aproveitar a sabedoria coletiva para criar previsões precisas e imparciais sobre os eventos mais importantes para a sociedade. Essa capacidade é particularmente valiosa em momentos angustiantes como os que vivemos atualmente. Após conversarmos com as pessoas diretamente afetadas pelos ataques, que tinham dezenas de perguntas, percebemos que os mercados de previsão poderiam dar-lhes as respostas de que precisavam, de uma forma que os noticiários televisivos e o 𝕏 não conseguiam.

O problema é que pode ser argumentado que quem mais tem informação se o Hezbollah vai ou não atacar até um dia específico, é o próprio grupo terrorista. Por conta da defesa antiaérea do país, não há como ter certeza de que algum drone ou míssil atinja o solo, mas mesmo assim eles tem vantagem mais do que ninguém.

Similarmente, surgem com frequência apostas sobre a Rússia conquistar ou não determinada área do território ucraniano até tal data. E embora seja impossível saber se sim, a não ser que a Ucrânia permita por algum motivo, seria muito fácil para a Rússia apostar que não, e de propósito adiar ataques aquela determinada região.

Ou seja, as apostas abrem margem para que apostadores estejam, sem querer, financiando guerras ao redor do mundo. Provavelmente não é a intenção das plataformas, mas sim uma consequência não desejável do objetivo principal: gerar um mercado de previsão a fim de que tenhamos informações probabilísticas sobre eventos futuros.

Será que vale à pena saber o futuro, se ele pode ser manipulável?

Aliás, essa pergunta nos leva a outro ponto: quem decide o resultado das apostas?

O caso das ameaças à jornalista

Um caso curioso, e também extremamente problemático aconteceu na aposta sobre se o Irã atacaria Israel no dia 10 de março. Falamos deste fato na seguinte matéria, onde você pode ler por completo aqui:

Pois bem, às 11:35 da manhã do dia 10, o jornalista Emanuel Fabian reportou o seguinte vídeo no seu perfil no X, mostrando um míssil atingindo uma área aberta em Beit Shemesh, em Israel.

Era o suficiente para resolver a aposta no “Sim”. Mas isso não deixou os apostadores do “Não” felizes.

Segundo relatos do próprio jornalista, inúmeros emails foram recebidos nos dias seguintes pedindo que ele alterasse a sua matéria. Isso porque a regra do mercado tinha uma cláusula decisiva: mísseis interceptados não contam para resolução em “Sim”, independentemente de caírem em território israelense.

Fabian respondeu os primeiros emails dizendo que ouviu do próprio exército que se tratava de uma ogiva de míssil, e insistiu que fragmentos não causam a explosão registrada no vídeo.

Mas, os apostadores não estavam interessados nos fatos. Estavam interessados em ganhar dinheiro em uma aposta. E estavam dispostos a ir cada vez mais longe para convencer o jornalista a mudar sua reportagem.

Na madrugada do domingo, 15 de março, o jornalista recebeu a seguinte mensagem anônima: 

“Você não faz ideia do risco que se expôs. Hoje é o dia mais importante da tua carreira. Você tem duas opções: ou acredita que temos capacidade para isso e, depois de nos fazeres perder 900 mil dólares, investiremos pelo menos essa quantia para acabar contigo; ou põe fim a isto com dinheiro no bolso e recupera a vida que tinha até agora.”

Pela manhã, as ameaças pioraram:

“Se você decidir seguir seu ego e não a cabeça, estará deixando para trás dezenas de pessoas ricas ao redor do mundo todo que saberão que você manipulou o mercado e roubou delas. Eles sabem quem você é, você não sabe quem eles são. Eles demoraram menos de 5 minutos para descobrir exatamente onde você mora… quantas vezes você vê seus adoráveis pais… e exatamente quem são seus irmãos e irmãs.”

Fabian não cedeu às mensagens e relatou as ameaças à polícia, que passou a investigar o caso. A própria Polymarket condenou a atitude dos traders e reforçou que este comportamento viola os termos de uso da plataforma, depois afirmou que identificou os usuários, baniu do site e os reportou para as autoridades.

Conclusão

No fim das contas, temos plataformas que, com impressionante assertividade, nos dão probabilidades de eventos futuros. Segundo o CEO do Polymarket, o mercado preditivo é a ferramenta mais precisa que temos como humanidade agora, até que alguém crie uma “super bola de cristal”.

Mas, por outro, lado, temos problemas éticos e morais que surgem das apostas. Pessoas comuns perdendo dinheiro para quem tem informações privilegiadas, a possível influência em guerras, o incentivo financeiro à manipulação…

São todas questões que veremos cada vez mais serem discutidas nos próximos anos.

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