Rastrear Jatos de Bilionários Pode Prever o Fim do Mundo? Um Ex-Professor da NYU Acha Que Sim

Kyle McDonald é artista, programador e ex-professor universitário. Em vez de escrever um manifesto, ele escreveu código — e o resultado é um painel público que monitora 11 mil jatos privados ao redor do mundo em busca de um sinal específico: a elite decolando ao mesmo tempo.

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Kyle McDonald não é exatamente o perfil que vem à mente quando se pensa em vigilância de voos. Ex-professor adjunto do ITP na Universidade de Nova York, membro do coletivo de arte digital F.A.T. Lab e residente artístico em instituições como o Carnegie Mellon e o YCAM no Japão, McDonald passou a carreira explorando o que acontece quando tecnologia encontra comportamento humano — instalações interativas, intervenções em espaços públicos, ferramentas abertas para outros artistas.

Seu projeto mais recente segue a mesma lógica, mas com uma pergunta diferente: se uma catástrofe global fosse iminente, como você saberia? A resposta de McDonald foi construir um sistema que monitora jatos privados em tempo real e emite um alerta quando o número de aeronaves no ar desvia do padrão histórico. O nome do projeto diz tudo: Apocalypse Early Warning System.

O Site, a Lógica e os 11 Mil Aviões

O endereço é ews.kylemcdonald.net e o funcionamento é direto. O sistema monitora uma coorte fixa de jatos de negócios usando arquivos de heatmap do ADS-B Exchange para detectar atividade incomum. Esses dados são cruzados com o registro público da FAA e com bases globais de identificação de aeronaves pelo código ICAO — o identificador único de cada avião no sistema de aviação civil.

Na data de publicação, 230 dos 11.482 aviões rastreados estavam no ar, com nível de emergência em 1, dentro do padrão normal. O sistema gera um índice que vai de 1 a 5. No nível 5, o painel entende que algo fora do comum está acontecendo com a movimentação da frota de jatos privados rastreada. Um exemplo de alerta seria: “nível de emergência 5 — 521 aeronaves no ar, 121 acima do esperado”.

Os modelos de aeronave mais comuns na coorte rastreada são o Embraer Phenom e o Cessna Citation. O código é aberto e está disponível no GitHub. Para quem quer acompanhar sem precisar acessar o site, há um feed RSS e um canal no Telegram com alertas automáticos.

Nas palavras do próprio McDonald, o projeto “transforma a fuga da elite em um sistema de medição com ruído” — reconhecendo abertamente que o sinal é imperfeito, mas que imperfeito não significa inútil.

Os Limites Que o Próprio Criador Admite

McDonald é explícito sobre o que o sistema não consegue fazer. A cobertura ADS-B não é universal — aeronaves podem ter transponders bloqueados ou desativados. Os heatmaps chegam em janelas de meia hora, não em tempo real contínuo. A coorte de 11 mil aviões é uma aproximação, não um registro definitivo de todos os jatos relevantes do mundo.

O sistema está enquadrado como um monitor de anomalias para sinais públicos de voo, não como evidência de intenção, destino, propriedade ou de quem está a bordo. Isso importa. O que o painel mostra é comportamento agregado — não um mapa de onde Jeff Bezos dormiu essa semana.

Curiosamente, é exatamente essa contenção metodológica que torna o projeto mais interessante do que os rastreadores individuais de celebridades que proliferaram nos últimos anos. McDonald não está fazendo jornalismo investigativo nem perseguição. Está construindo um termômetro.

Arte, Código e Dados Públicos

O Apocalypse Early Warning System se encaixa numa tradição de projetos de McDonald que usam tecnologia disponível para revelar dinâmicas que normalmente ficam invisíveis. Outro projeto recente dele é o MyEpstein — uma ferramenta para verificar se nomes do seu círculo aparecem no arquivo de e-mails públicos de Jeffrey Epstein.

O que une esses projetos é o método: pegar dados que já existem, que são tecnicamente acessíveis ao público, e construir uma interface que torna o padrão visível. Posições de jatos privados precisam ser publicadas em tempo real para que a aviação pública esteja ciente de riscos no ar — os ricos prefeririam voar sem essa visibilidade, mas por enquanto a janela de dados permanece aberta.

Para o leitor do Soberano, vale guardar esse princípio: dados públicos são infraestrutura. Quem os processa primeiro — seja um artista em Los Angeles, seja um fundo de hedge em Londres — chega à conclusão antes. O site de McDonald é gratuito, aberto e atualizado em tempo real. Vale pelo menos um marcador no navegador ou assinar ao sistema de alerta dele.

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