Bitcoin falha como reserva de valor, diz Ray Dalio

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Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates e gestor de um dos maiores hedge funds da história, publicou nesta semana uma análise em três pontos sobre por que o Bitcoin falha como porto seguro.

Os argumentos de Dalio

Dalio estruturou a crítica em três eixos.

O primeiro é privacidade. Transações em Bitcoin podem ser monitoradas e, portanto, potencialmente controladas, o que, segundo ele, explica por que bancos centrais não têm interesse em mantê-lo como reserva.

O segundo é correlação com tecnologia. Em momentos de squeeze em outros ativos, investidores vendem Bitcoin para cobrir posições — comportamento que o aproxima de ativo de risco, não de porto seguro.

O terceiro é o tamanho do mercado e exposição à manipulação. O mercado de Bitcoin é relativamente pequeno e, portanto, mais suscetível a movimentos concentrados. Ouro, conclui Dalio, é mais amplamente detido, mais profundamente estabelecido e ainda joga papel central no sistema global.

O argumento não é novo — Dalio faz versões dessa crítica há anos — mas agora veio em resposta a uma pergunta sobre o movimento de alta recente do ouro, enquanto o BTC cai. O cenário atual é de um ambiente geopolítico instável em que o ouro atingiu máximas históricas enquanto o Bitcoin oscilou com correlação maior do que muitos esperavam com ativos de risco.

A resposta de Saylor

O tweet de Dalio gerou uma resposta de Michael Saylor, maior investidor institucional de Bitcoin: “Ouro é capital analógico. Bitcoin é capital digital. Transparência é uma feature, não um bug, tornando o BTC adequado como garantia global. Desde que adotamos o Bitcoin Standard em 10 de agosto de 2020, o Bitcoin superou o ouro com Sharpe ratio mais alto.”

Comparação do retorno de ativos financeiros desde que a Strategy passou a adotar o Bitcoin como reserva de caixa
Comparação do retorno de ativos financeiros desde que a Strategy passou a adotar o Bitcoin como reserva de caixa. | Fonte: Saylor no X

É uma resposta que funciona como posicionamento de marca, mas que evita a parte mais interessante do argumento de Dalio, que é a questão de privacidade para bancos centrais e o comportamento de correlação em crises.

Meio termo

Matthew Nicoletti, CSO e Diretor da Perpetuals, foi mais preciso do que ambos: “O argumento de privacidade contra o BTC é válido, mas ignora completamente o caso de uso como garantia institucional.”

É uma distinção importante. A crítica de Dalio sobre privacidade é válida dentro de um contexto específico: atores que precisam mover valor de forma não rastreável exigem confidencialidade. Isso importa até mesmo para o que deveria ser o caso de uso mais diferenciado do Bitcoin: transações resistentes à censura.

Para esse perfil, a transparência do ledger público é genuinamente uma limitação, não uma feature. A Soberano documentou isso extensamente na análise sobre Bitcoin e o conflito iraniano.

Mas para o caso de uso que Saylor defende — colateral institucional, reserva de valor verificável, ativo auditável por qualquer contraparte — transparência é exatamente o que torna o Bitcoin superior ao ouro físico. Não há como verificar reservas de ouro em tempo real.

Com Bitcoin, qualquer contraparte pode confirmar a existência e o controle do ativo sem depender de auditoria de terceiros. Ou seja, os dois lados estão corretos, mas sobre diferentes casos de uso.

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