Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes e isso afetará o preço da sua comida

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Você foi ao supermercado semana passada. Pegou o arroz, o feijão, a carne. E sentiu aquele aperto no peito quando viu o total. Não é impressão. Não é saudosismo. É um número que cresceu, e vai continuar crescendo — só que agora por razões que a maioria das pessoas não consegue enxergar no caixa do mercado.

O que está empurrando o preço dos alimentos no Brasil começou em 28 de fevereiro de 2026, quando os Estados Unidos e Israel realizaram ataques coordenados contra instalações militares no Irã. A resposta iraniana não veio em forma de míssil. Veio em forma de controle sobre um canal de água.

O Estreito de Ormuz. Cinquenta e quatro quilômetros de largura. A passagem mais importante do planeta.

O canal que alimenta o mundo

Por Ormuz passa um quinto de todo o petróleo negociado no mercado global. Um quarto do gás natural liquefeito. E o detalhe que quase ninguém menciona quando fala sobre esse conflito: cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes.

Em 12 de abril de 2026, os EUA declararam bloqueio naval total na região, em resposta às cobranças de pedágio que o Irã havia imposto às embarcações comerciais. O tráfego de navios por Ormuz — que era superior a 130 travessias diárias — despencou 95% praticamente da noite para o dia.

Navios carregados com ureia, amônia e enxofre — os ingredientes que alimentam as fazendas do mundo inteiro — foram forçados a retornar aos portos de origem ou a contornar o continente africano inteiro para chegar ao destino. O que antes era uma semana de navegação virou cinco, seis semanas. O custo explodiu antes que qualquer produto chegasse a lugar nenhum.

“O bloqueio nem precisa existir de fato. Só a ameaça concreta de um ataque já é suficiente para reescrever o preço do seguro marítimo — e, por consequência, de tudo que flutua dentro dos navios.”

Antes da crise, o prêmio de seguro de guerra era de 0,25% do valor da carga. No auge da tensão, seguradoras chegaram a cotar 50% do valor do ativo em um único prêmio. Cinquenta por cento. Para transportar uma carga que vale cem, você precisava gastar cinquenta antes de navegar.

Impacto imediato nos mercados — Abril/2026
Barril de Brent (de fev. a abr.) US$ 73 → US$ 118
Alta projetada no frete marítimo global +65%
Alta da ureia em semanas +30% a +40%
Diesel no Brasil > R$ 7,00/L
Prêmio de seguro de guerra (pico) até 50% do ativo

O Brasil e a dependência que ninguém quer calcular

A maioria das pessoas sabe que fertilizantes existem. Poucas sabem que o Brasil importa entre 85% e 90% de tudo que usa. Quase ninguém sabe de onde.

A ureia que nutre as lavouras brasileiras vem majoritariamente de fora: 23% da Nigéria, 17% da Rússia, 16% de Omã, 13% do Catar. O potássio — insumo essencial para soja e milho — tem 45% de origem russa e 38% canadense. O MAP, o fosfato que a soja precisa para produzir, vem 46% da Rússia.

Quase metade dos fertilizantes que o Brasil importa vem de países em conflito aberto ou com instabilidade política severa. E entre esse fertilizante e as fazendas brasileiras está o Estreito de Ormuz.

O Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo. Consome 8% de toda a oferta global. E produz internamente menos de 10% do que consome em nitrogênio, menos de 3% em potássio, e 44% em fósforo. A maior potência agrícola do hemisfério sul — aquela que se orgulha de ser o celeiro do mundo — tem seu funcionamento dependente de rotas marítimas seguras no Oriente Médio, de relações diplomáticas estáveis com Rússia, Canadá e Marrocos, e de paz no Golfo Pérsico.

Não é exagero dizer que uma guerra no outro lado do mundo decide o preço do arroz na sua cidade. É exatamente isso o que está acontecendo.

A matemática que quebra o campo

Fertilizante representa entre 20% e 40% do custo de produção do milho, da soja e do feijão. Quando o insumo encarece nessa magnitude, a conta não fecha mais.

Um fazendeiro em Mato Grosso viu o custo do milho subir 4,68% só pelo efeito combinado dos fertilizantes e do diesel gerado pela crise em Ormuz. Em Sorriso, os custos adicionais de replantio de soja atingiram 7,4 sacas por hectare. A relação de troca — quantas sacas são necessárias para comprar uma tonelada de insumo — piorou de forma drástica e rápida.

Nos Estados Unidos, pesquisas de campo apontam que 70% dos agricultores afirmam não conseguir adquirir fertilizante suficiente para a próxima safra. O dado chegou a ser mencionado publicamente por Donald Trump.

Mas há um detalhe cruel nessa equação: a safra atual — a que está no campo agora — ainda usa fertilizante comprado antes da crise, quando estava mais barato. O impacto real ainda não chegou à prateleira. A safra de 2027 será a primeira a absorver o choque completo.

“É aí que o seu supermercado vai sentir de verdade. O delay entre o choque no insumo e o impacto no prato é de seis a dezoito meses.”

A cadeia é direta: fertilizante caro encarece a produção de grãos. Menos grãos no mercado sobe o preço da ração animal. Soja e milho são os principais componentes da ração de frango, suíno e bovino. Estudos de elasticidade econômica mostram que uma alta de 10% no preço do milho gera aumento de 3,13% no preço da ração e de 1,45% no IPCA da carne suína em doze meses. Multiplique isso por um choque de 30%, 40% nos insumos.

A projeção do setor é que os alimentos encerrem 2026 com alta média de 4,6%, com o efeito mais intenso concentrado no segundo semestre. O Ministério da Fazenda já revisou a projeção do IPCA para cima em abril. Cada 1% de alta no petróleo eleva o índice em 0,02 ponto percentual — e o petróleo subiu 62% desde fevereiro.

O plano de longo prazo que não resolve o problema de amanhã

Existe uma resposta institucional para tudo isso. O Plano Nacional de Fertilizantes busca reduzir a dependência externa de 85% para 45% até 2050. A Petrobras retomou fábricas de ureia na Bahia e em Sergipe. Há promessa de uma fábrica nova no Mato Grosso do Sul para 2029.

São movimentos necessários e corretos. Mas são movimentos de 2050 e de 2029. O problema é de 2026 e de 2027.

O fertilizante nitrogenado é, em essência, gás natural transformado em comida. Uma equação química descoberta há cem anos permite alimentar 8 bilhões de pessoas. Mas essa equação depende de rotas seguras, de países em paz, de logística funcionando. Quando qualquer parte dessa corrente quebra, o impacto chega ao prato com atraso — mas chega.

O mundo ficou muito eficiente, muito interligado, muito dependente de que tudo dê certo ao mesmo tempo. E essa eficiência, quando falha, falha rápido e fundo.

O que fazer com essa informação

Soberania individual começa em entender como o sistema funciona antes que ele te atinja. Não depois de ver o preço no caixa e sentir aquele aperto no peito.

O noticiário vai cobrir esse assunto quando os preços já tiverem subido. Quem entende a cadeia de transmissão age antes. O timing é tudo: seis a dezoito meses de defasagem entre o choque no insumo e o impacto no varejo. Esse intervalo não é um problema — é uma janela.

Inflação de alimentos corrói quem não se prepara. Diversifique onde você guarda valor. Ativos que não dependem do real para existir fazem parte dessa equação. Formação de estoque básico de alimentos não é paranoia — é administração de risco em um cenário que os dados já descrevem com clareza.

A crise em Ormuz não é um evento isolado. É o tipo de choque de oferta que o sistema global está cada vez mais suscetível a produzir, porque cada vez mais dependente de que nada quebre. Quando algo quebra, o efeito viaja pela cadeia e aparece onde você menos espera: na gôndola do supermercado, na conta do final do mês.

Entender isso é, em si, uma forma de proteção.

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