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O escândalo do Banco Master ganhou um personagem improvável: a Tether, emissora do USDT e uma das maiores empresas do ecossistema cripto global, está na Justiça brasileira cobrando uma dívida de R$ 1,6 bilhão da Titan Holding — a holding pessoal de Daniel Vorcaro, preso desde março deste ano por planejar atos violentos contra opositores e investigado pela Polícia Federal por gestão fraudulenta.
O caso foi revelado pelo Estadão, que obteve acesso ao contrato de financiamento e ao processo judicial movido pela Tether.
A informação mais importante para o investidor de criptomoedas: em nota para o jornal Estadão, a Tether afirmou que o investimento foi realizado pela Tether Investments, braço de investimentos da empresa, e não tem relação com as reservas da stablecoin USDT.
Em março de 2024, a Tether Investments firmou contrato de empréstimo de US$ 300 milhões com a Titan Holding. O dinheiro foi liberado em duas parcelas: a primeira em 28 de março de 2024, o mesmo dia em que o Banco de Brasília anunciou a intenção de comprar o Master — operação que seria barrada pelo Banco Central meses depois. A segunda parcela chegou cerca de quatro dias depois.
A Titan deveria devolver o valor com juros em até 12 meses. O contrato previa duas hipóteses de vencimento antecipado: rebaixamento da nota de crédito do Master ou sua liquidação.
Ambas ocorreram. Em setembro de 2024, a Fitch Ratings rebaixou a classificação de risco do banco, ativando a primeira cláusula. Em novembro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master, ativando a segunda. Com juros acumulados, a dívida chegou a R$ 1,6 bilhão — e a Tether afirma não ter recebido nada.
O contrato ofereceu como garantia do empréstimo a carteira de operações de crédito consignado do Master — incluindo contratos do Credcesta, linha de empréstimos voltada a aposentados e servidores públicos que ficou no centro das investigações por suposta fraude. Ironicamente, essa mesma carteira integrava os ativos que o Master vendeu ao BRB em operação considerada fraudulenta pela PF.
No processo judicial, a Tether requer o bloqueio dos valores oriundos dessas carteiras e sua destinação ao pagamento da dívida. Caso insuficientes, pede penhora de outros ativos das empresas devedoras.
Em nota ao Estadão, a empresa afirmou que o empréstimo foi concedido de boa-fé, quando não havia “qualquer indicação sobre as irregularidades” do conglomerado Master.
“A Tether Investments concedeu o empréstimo de boa-fé e, assim como diversos outros credores, ainda não recebeu o respectivo pagamento”, declarou a empresa.
O caso tem pelo menos duas camadas relevantes para quem acompanha o mercado de cripto.
A primeira é operacional: a Tether Investments atua como braço de crédito corporativo, com capacidade de estruturar operações de centenas de milhões de dólares para conglomerados financeiros. Isso é distinto da função principal da empresa — emissão de USDT — mas mostra o nível de sofisticação e escala que a empresa atingiu como instituição financeira.
A segunda é de risco: a Tether emprestou US$ 300 milhões a uma holding cuja garantia central era uma carteira de consignados que estava no coração de um esquema fraudulento. A empresa afirma que não sabia das irregularidades. O que o caso documenta é que risco de contraparte existe mesmo para operações com garantias aparentemente sólidas — especialmente quando o devedor opera num ambiente regulatório opaco.
| Evento | Data |
|---|---|
| Contrato assinado, primeira parcela liberada | 28 mar. 2024 |
| Segunda parcela liberada | ~1 abr. 2024 |
| Fitch rebaixa nota do Master (vencimento antecipado) | Set. 2024 |
| BC decreta liquidação do Master (2º vencimento antecipado) | 18 nov. 2024 |
| Prazo original de pagamento | 28 mar. 2025 |
| Valor total devido com juros | R$ 1,6 bilhão |
Vorcaro segue preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. A defesa da Titan não se pronunciou sobre o processo da Tether.