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Na segunda-feira, 9 de março, o Wall Street Journal reportou que a Nasdaq anunciou parceria com a Kraken e com empresas listadas para desenvolver seu plano de oferecer ações tokenizadas na bolsa.
Em setembro de 2025, a Nasdaq já havia protocolado uma proposta de mudança de regras na SEC para permitir que ações e ETFs listados na bolsa fossem negociados em formato tokenizado, ao lado das versões tradicionais, usando a mesma ordem de negociação e o mesmo ticker.
A parceria com a Kraken, cuja empresa-mãe é a Payward, define como esse plano chegaria ao mercado internacional: a exchange atuaria como distribuidora de versões tokenizadas 1:1 de ações de empresas públicas para clientes fora dos EUA, com foco inicial na Europa.
Según press release oficial publicado pelo CoinDesk, detentores dos tokens teriam os mesmos direitos de governança corporativa que acionistas tradicionais, incluindo voto em assembleias e recebimento de dividendos.
O movimento não é isolado. Na semana passada, a ICE (operadora da NYSE) fez um investimento estratégico na OKX, outro grande exchange de criptomoedas, com acordo para oferecer ações tokenizadas e futuros de cripto.
As principais infraestruturas de mercado do mundo estão correndo para integrar blockchain antes que concorrentes o façam.
A proposta da Nasdaq à SEC, publicada no Federal Register em janeiro de 2026, descreve um sistema que opera dentro da estrutura regulatória existente, não em paralelo a ela. Uma ação negociada na Nasdaq poderia ser liquidada em formato tokenizado na blockchain da Depository Trust Company (DTC), caso o investidor ou a corretora optem por isso no momento da ordem. As versões tokenizada e tradicional seriam fungíveis entre si, com os mesmos direitos de acionistas.
En entrevista ao Newsroom da Nasdaq, Chuck Mack, vice-presidente sênior de Mercados da América do Norte, resumiu o ponto central: a proposta não cria instrumentos novos nem exóticos. Ela oferece uma forma diferente de representar digitalmente o mesmo ativo que já existe. Ações já são digitais hoje; a tokenização seria apenas outro método de registro, agora em blockchain.
Os primeiros trades tokenizados podem ocorrer até o final do terceiro trimestre de 2026, caso a SEC aprove a proposta. A Casa Branca e o chairman da SEC, Paul Atkins, têm sinalizado apoio a iniciativas que fortaleçam a liderança americana em tecnologia financeira digital.
A Kraken entrou na semana passada em outro marco relevante: tornou-se a primeira exchange de criptomoedas a ter acesso ao sistema de pagamentos do Federal Reserve, eliminando intermediários bancários para liquidação em dólar.
A parceria com a Nasdaq vem logo na sequência, e a combinação das duas coisas revela a estratégia: a Kraken está construindo infraestrutura para se posicionar como ponto de acesso a ativos tradicionais para clientes globais via blockchain.
A distribuição focada em mercados fora dos EUA também tem uma lógica regulatória. Nos EUA, a negociação de ações tokenizadas ainda depende da aprovação da SEC em andamento. Na Europa e em outros mercados, a Kraken pode operar com maior agilidade dentro dos arcabouços regulatórios já existentes para ativos digitais.
Para o investidor brasileiro ou europeu, a imagem concreta é a seguinte: comprar ações de empresas americanas listadas na Nasdaq via uma interface de exchange de criptomoedas, com liquidação em blockchain, recebendo dividendos e tendo direito a voto, sem precisar de corretora americana nem conta em banco americano.
Os ativos são os mesmos. Os direitos são os mesmos. A infraestrutura de liquidação e o canal de acesso é que mudam.
O que permanece intacto é a dependência de intermediários. A blockchain que liquida os trades da Nasdaq é permissionada e operada pela DTC, uma entidade centralizada. O token da Apple na Kraken via Nasdaq continuará sujeito a KYC, congelamento de conta e restrições regulatórias, exatamente como qualquer ação em qualquer corretora hoje.
A tokenização nesse modelo resolve problemas reais de eficiência operacional: liquidação mais rápida, automação de ações corporativas, acesso globalizado. Mas não altera a natureza do ativo, que continua sendo uma promessa de uma instituição sobre um direito em outra instituição.
Isso não invalida o movimento. Para quem investe em ações, há benefícios concretos de acessibilidade. Mas é uma categoria diferente do que Bitcoin representa: um ativo ao portador que pode ser custodiado diretamente, sem contraparte.