Apostadores do Polymarket ameaçaram matar jornalista israelense

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Em 10 de março, Emanuel Fabian, correspondente militar do Times of Israel, cobriu uma explosão nos arredores de Beit Shemesh, perto de Jerusalém. Ele reportou o que as equipes de resgate confirmaram: um míssil balístico atingiu uma área aberta, nenhum ferido.

Nos dias seguintes, essa cobertura virou o centro de uma crise que envolveu emails de falsos jornalistas, capturas de tela fabricadas, um suposto advogado ao telefone, tentativa de suborno de um colega, e ameaças de morte com contagem regressiva em tempo real — tudo para forçar Fabian a escrever que o objeto era um fragmento de interceptor, não um míssil.

O que estava em jogo

No Polymarket, havia um mercado com mais de US$ 14 milhões apostados na pergunta “O Irã ataca Israel no dia 10 de março?” A regra do mercado tinha uma cláusula decisiva: mísseis interceptados não contam para resolução em “Sim”, independentemente de caírem em território israelense. Se o objeto em Beit Shemesh fosse reclassificado como fragmento de interceptor, o mercado resolveria em “Não” — e quem havia apostado nessa direção ganharia.

A cobertura de Fabian se tornou um obstáculo para diversos apostadores.

A escalada das ameaças

Terça, 10 de março. Fabian recebe um e-mail de alguém chamado “Aviv” pedindo que atualize o artigo para indicar fragmento de interceptor, alegando que a prefeitura de Beit Shemesh e o Magen David Adom haviam “corrigido” seus relatórios. Fabian verificou com o exército israelense e manteve a cobertura: era uma ogiva, com centenas de quilos de explosivos — a imagem é consistente com isso; fragmentos de interceptor não produzem aquela explosão.

Quarta, 11. Um segundo e-mail, agora de “Daniel”, com tom mais velado mas mesmo pedido. Fabian responde solicitando detalhes. Daniel insiste, cita uma suposta cobertura do The Economist — que na verdade era do Economic Times indiano — e pede correção “ainda esta manhã”. Chegam também mensagens via Discord e uma resposta no X de contas ligadas a atividades no Polymarket.

Quinta, 12. Fabian vai ao X e diz publicamente aos apostadores para “arranjarem um hobby melhor”.

Mas isso não os parou. Um colega de outra publicação o contata: um conhecido havia pedido que ele convencesse Fabian a mudar o texto, dizendo que seria “negligível” para ele fazer a alteração. Quando o colega confrontou o conhecido, ele admitiu ter apostado no Polymarket — e ofereceu uma parte dos ganhos se o colega conseguisse persuadir Fabian.

Também circulava uma captura de tela fabricada de uma resposta de Fabian a Daniel — em que Fabian supostamente confirmava que o IDF havia dito ser um fragmento de interceptor e que o artigo seria corrigido. Fabian nunca escreveu isso.

Sábado para domingo, 14-15. Pouco depois da meia-noite, começam as mensagens de um número desconhecido de WhatsApp, de alguém chamado “Haim”:

“Você tem exatamente meia hora para corrigir sua tentativa de influência.”

“Se não corrigir até 01h do dia 15 de março, você está trazendo sobre si um dano que nunca imaginou sofrer.”

Fabian estava dormindo quando recebeu essas mensagens. Haim continuou:

“Depois que você nos fez perder US$ 900 mil, vamos investir não menos que isso para acabar com você.”

“Você está escolhendo ir para a guerra sabendo que vai perder sua vida como se acostumou — por nada.”

Haim então listou detalhes específicos sobre o bairro onde Fabian mora, os pais e os irmãos. “Levou menos de 5 minutos para descobrir exatamente onde você mora… com que frequência você vê seus adoráveis pais… e exatamente quem são seus irmãos e irmãs.”

Domingo, 15. Uma pessoa que se apresentou como a advogada “Vered” ligou para Fabian informando que ele estava sendo investigado por suposta manipulação de mercado no Polymarket. A voz do telefone não combinava com o perfil. Fabian desligou e foi à delegacia prestar queixa.

À tarde, Haim voltou: “Você tem 86 minutos para atualizar a mentira… Existem algumas pessoas que não se importam muito com a lei, e você vai fazê-las perder cerca de 50 vezes o que você ganhará na vida toda.”

“86 minutos. Você é o único responsável pela sua vida.”

Segunda de madrugada, 16. Enquanto Fabian corria para um abrigo antiaéreo durante mais um ataque iraniano, Haim enviou nova série de mensagens. “Você vai pagar o preço total pelo seu ato irresponsável.”

A resposta do Polymarket

Contactado pelo Times of Israel, o Polymarket condenou as ameaças e afirmou ter banido as contas dos envolvidos, repassando as informações às autoridades.

A empresa não respondeu perguntas sobre se havia sido contatada pela polícia israelense, se poderia ajudar a identificar os suspeitos ou se tinha conhecimento de incidentes similares anteriores.

Fabian concluiu: “A tentativa desses apostadores de me pressionar a mudar minha cobertura não deu e não dará certo. Mas me preocupa que outros jornalistas possam não ser tão éticos se for prometida uma parte dos ganhos.”

O problema estrutural

O caso expõe uma tensão no coração dos prediction markets: a resolução dos mercados depende de fontes externas — jornalistas, oráculos, relatórios oficiais. Quem tem capital suficiente apostado tem incentivo concreto para tentar influenciar essas fontes.

Outra questão é o insider trading. No mês passado, as autoridades israelenses indiciaram um soldado reservista e um associado por usar informações militares classificadas para apostar no Polymarket sobre ataques israelenses ao Irã em 2025.

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