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O que muda quando a empresa com mais BTC no mundo abandona o mantra "nunca vender"?

A Strategy, empresa de Michael Saylor e maior detentora corporativa de bitcoin do mundo, vendeu 32 BTC entre os dias 26 e 31 de maio de 2025. A operação, reportada em filing à SEC, rendeu aproximadamente US$2,5 milhões e foi justificada como necessária para financiar dividendos de ações preferenciais da companhia. É apenas a segunda vez que a empresa vende bitcoin desde a sua fundação — a primeira foi em dezembro de 2022, quando liquidou 704 BTC por razões fiscais.
O número assusta menos pelo tamanho do que pelo que representa.
Em termos absolutos, 32 BTC equivalem a 0,0038% das reservas da empresa, que hoje somam 843.706 unidades adquiridas a um custo médio de US$75.699 cada. A venda não ameaça o balanço. Não enfraquece a posição. Não muda nada no mundo real do bitcoin.
Reserva Strategy — participação vendida
Mas derruba um pilar narrativo que vinha sendo construído há anos.
Saylor passou toda a última década construindo uma identidade em torno de uma ideia única: bitcoin nunca deve ser vendido. Ele dizia isso em conferências, em entrevistas, em posts. Em fevereiro deste ano, afirmou à CNBC que a Strategy compraria bitcoin “todo trimestre, para sempre”. A empresa era o principal argumento dos defensores institucionais de que o bitcoin seria uma reserva corporativa permanente, imune à pressão de liquidez.
Essa posição começou a rachar silenciosamente no earnings call do primeiro trimestre de 2025, quando Saylor admitiu: “Provavelmente venderemos algum BTC para pagar um dividendo só para inocular o mercado, para mandar o recado de que fizemos isso.” Seu CEO Phong Le foi mais direto ainda: a empresa venderia bitcoin quando fosse vantajoso, inclusive para financiar operações.
A venda marca o abandono oficial da postura de “nunca vender” que Saylor sustentou por anos.
Imediatamente após o anúncio, as ações da MSTR despencaram mais de 5% no pré-mercado. O bitcoin caiu abaixo de US$72.000, recuando 2,5% em 24 horas. No Stocktwits, o sentimento dos investidores de varejo em torno do BTC atingiu território “extremamente baixista”.
Essa reação exagerada para uma venda de 32 moedas é, em si, uma informação valiosa. Ela revela o quanto o mercado havia incorporado a narrativa da Strategy como uma âncora psicológica. A empresa funcionava como uma espécie de banco central voluntário do bitcoin, um comprador compulsivo que dava chão para o preço. A ação MSTR historicamente acompanha de perto o BTC, potencializando tanto as altas quanto as correções, devido à alavancagem e ao sentimento de mercado.
Para o investidor soberano, o episódio é um lembrete útil: a única posição de bitcoin que você controla plenamente é aquela cujas chaves privadas estão em suas mãos. Tudo o mais — ações de empresas de tesouraria, ETFs, fundos alavancados — é exposição financeira ao preço, não custódia do ativo.