Bitcoin volta a respirar acima dos US$ 65 mil enquanto a paz reabre o Estreito de Ormuz

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O mercado descobriu de novo, na marra, aquilo que o Soberano repete há anos: o preço do Bitcoin não dança sozinho. Ele dança com a geopolítica, com o barril de petróleo e com o humor de quem aperta o botão de comprar risco. E nesta segunda-feira (15), com a notícia de que Estados Unidos e Irã fecharam um acordo de paz, todo mundo decidiu apertar o botão ao mesmo tempo.

A maior criptomoeda do mundo abriu a semana operando acima dos US$ 65 mil, recuperando fôlego depois de semanas em que o medo de uma escalada no Oriente Médio empurrou o ativo para baixo dos US$ 60 mil, o menor patamar desde outubro de 2024. Nas primeiras horas do dia o Bitcoin chegou a cravar uma máxima de quase duas semanas, na casa dos US$ 65.800, com alta superior a 2% em 24 horas.

O dominó começou no Estreito, não na blockchain

Para entender por que o Bitcoin subiu, é preciso olhar para o mapa antes de olhar para o gráfico. Desde o fim de fevereiro, quando operações militares conjuntas de Estados Unidos e Israel contra o Irã jogaram o mercado de energia no caos, o Estreito de Ormuz virou o epicentro da ansiedade global. Não é exagero: essa faixa estreita de mar movimenta algo entre 20% e 25% de todo o petróleo transportado por via marítima no planeta. Fechar Ormuz é apertar a jugular da economia mundial.

Durante o impasse, o Irã chegou a cobrar pedágio em cripto para navios cruzarem o estreito, algo na faixa de US$ 2 milhões por embarcação, ou cerca de US$ 1 por barril. Para quem acompanha o Soberano, esse detalhe vale mais que a cotação do dia: um Estado-nação sob sanção usando ativos digitais como ferramenta de poder geopolítico. É a soberania financeira saindo do PowerPoint e entrando na guerra real.

No domingo (14), Donald Trump declarou nas redes que o acordo estava “completo”, autorizou a reabertura livre de pedágio de Ormuz e a retirada do bloqueio naval americano. A assinatura formal está marcada para sexta-feira (19), na Suíça, abrindo uma janela de negociação de 60 dias focada no programa nuclear iraniano e no alívio de sanções.

Petróleo desaba, e o risco volta à mesa

A consequência foi imediata no mercado de energia. O Brent recuou mais de 4%, rumo aos US$ 83 o barril, o menor nível em cerca de três meses, à medida que os operadores desfaziam o prêmio de risco embutido desde o fim de fevereiro. Menos petróleo caro significa menos pressão inflacionária, e menos pressão inflacionária significa um cenário mais confortável para ativos de risco.

É aqui que a engrenagem fecha. A queda do Bitcoin abaixo dos US$ 60 mil na semana passada veio de duas frentes ao mesmo tempo: a tensão com o Irã empurrava o petróleo para cima, o petróleo caro reforçava a aposta em juros mais altos, e juros mais altos sugavam dinheiro do risco, cripto incluída. Um acordo que devolve o barril para perto dos US$ 83 simplesmente roda esse filme ao contrário.

O movimento foi amplo, não solitário. O Ethereum avançou na casa dos 3%, negociando ao redor de US$ 1.720. Solana, XRP e outras altcoins de menor capitalização registraram ganhos ainda maiores, com o HYPE, token da Hyperliquid, liderando os dez maiores com salto superior a 8%. Fora da cripto, ações asiáticas dispararam, o Nikkei mirou recorde e os futuros do S&P 500 subiram cerca de 1%.

O dinheiro institucional voltou a entrar

Não foi só geopolítica. Um segundo combustível ajudou a empurrar o preço: a virada dos fluxos dos ETFs de Bitcoin para o campo positivo. Os fundos spot registraram US$ 85,85 milhões em entradas líquidas na sexta-feira (12), com o IBIT, da BlackRock, abocanhando cerca de dois terços do total. Nenhum dos 12 fundos rastreados registrou saída, encerrando uma sequência de resgates que havia drenado mais de US$ 1,6 bilhão na semana anterior. Quando o capital institucional para de sangrar e volta a comprar, o mercado lê isso como um voto de confiança, mesmo que tímido.

Vale lembrar o que vinha pesando do outro lado: a Strategy, de Michael Saylor, a maior detentora corporativa de Bitcoin, havia revelado a venda de 32 BTC por cerca de US$ 2,5 milhões, sua primeira alienação líquida em aproximadamente quatro anos, feita para honrar dividendos de ações preferenciais. O valor é irrisório diante das mais de 843 mil moedas que a empresa ainda detém, mas a simbologia bastou para acender um estopim de vendas, agravado pela saída de recursos dos ETFs. Com o humor virando agora, as ações da própria Strategy subiram cerca de 6% no pré-mercado, acompanhadas por mineradoras e empresas ligadas ao setor.

Repique de alívio, não passe de mágica

Antes de qualquer um sair gritando que o touro voltou, convém manter os pés no chão, e os analistas estão fazendo questão de lembrar isso. O consenso entre as mesas é direto: estamos diante de um repique de alívio, não de uma reversão de alta confirmada. O movimento é movido por reposicionamento e rotação de risco, não por mudança nos fundamentos.

A leitura técnica reforça a cautela. O teste imediato está na faixa de resistência entre US$ 65.800 e US$ 66.200. Um fechamento sustentado acima dessa zona abre espaço rumo aos US$ 67.500 e US$ 68.000. Já a perda dos US$ 64.200 pode jogar o ativo de volta para a região dos US$ 63.000 e US$ 62.500. O nível mais comentado pelas mesas como gatilho para uma continuação consistente é o de US$ 67 mil.

Há ainda um detalhe que o mercado não esqueceu: ele já viveu esse roteiro. Um cessar-fogo em abril desmoronou, e ataques americanos romperam outra trégua no dia 9 de junho. Cada vez, o repique de alívio foi devolvido. Por isso ninguém está precificando um acordo permanente até que a assinatura de sexta-feira, na Suíça, de fato aconteça e se sustente.

E o verdadeiro juiz da semana usa terno, não capacete

Resolvido (por ora) o front militar, o foco do mercado migra para outro tipo de campo de batalha: a primeira reunião de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve, nos dias 16 e 17 de junho. O complicador é o pano de fundo: a inflação americana atingiu 4,2% em maio, o nível mais alto desde 2023, puxada justamente pela alta da gasolina ligada ao conflito no Irã.

A expectativa do consenso é de juros mantidos nesta reunião, mas com uma transição explícita do viés de afrouxamento para uma postura neutra. Uma surpresa hawkish, ou seja, sinalização de juros mais altos no chamado “dot plot”, é apontada como o principal risco de queda para a cripto nos próximos dias. Some-se a isso o estilo do próprio Warsh, conhecido por criticar o excesso de comunicação do Fed e prometer falar menos, o que tende a deixar o mercado mais reativo a cada novo dado econômico.

É o lembrete de sempre, e é exatamente a tese que sustenta o Soberano: o Bitcoin nasceu para escapar do controle dos bancos centrais, mas, enquanto a maior parte do capital ainda precifica o ativo como mais uma posição de risco na planilha, ele continua refém das decisões tomadas em Washington. A independência monetária é um destino, não um endereço atual. E cada acordo de paz, cada barril mais barato e cada reunião do Fed só reforçam por que vale a pena diversificar jurisdição, plantar bandeiras e construir soberania antes que o próximo conflito reabra o jogo.

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