O homem que pode ter criado o Bitcoin está influenciando seu PIX

Uma investigação do New York Times levantou a questão mais fascinante da história do Bitcoin. Mas a resposta mais importante não é quem Satoshi é — é o que ele construiu.

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O New York Times publicou recentemente uma das matérias mais impactantes sobre Bitcoin dos últimos anos. O jornalista John Carreyrou — o mesmo que derrubou a Theranos — afirmou ter descoberto a identidade de Satoshi Nakamoto, o criador misterioso do Bitcoin. O nome apontado: Adam Back, criptógrafo britânico de 55 anos e CEO de uma empresa chamada Blockstream.

Ele negou. Como sempre negou.

Mas o que quase ninguém está percebendo é que, independentemente de quem Adam Back seja, a tecnologia que ele construiu já está sendo usada por brasileiros que querem manter algum grau de privacidade financeira no PIX. Existe uma ligação direta — do possível criador do Bitcoin ao seu celular. Ela passa por uma ferramenta chamada DePix.Parte I

Quem é Adam Back — e por que importa

Para entender o que está acontecendo, é preciso voltar aos anos 90. Existia um grupo de pessoas chamadas cypherpunks: programadores, criptógrafos e matemáticos que acreditavam que a privacidade era um direito fundamental — e que a tecnologia era a única forma real de garanti-la. Eles desenvolviam protocolos de criptografia, trocavam emails em listas privadas e sonhavam com um dinheiro digital imune ao controle estatal.

Adam Back era um deles. Nascido em Londres em 1970, com doutorado em ciência da computação e especialidade em sistemas distribuídos, ele criou em 1997 o Hashcash — um mecanismo de prova de trabalho onde era necessário gastar poder computacional para enviar uma mensagem, tornando spam inviável. Na época, pareceu uma curiosidade técnica.

Uma década depois, um personagem misterioso publicou o whitepaper do Bitcoin — e citou o Hashcash de Adam Back como a base do sistema de mineração. Back foi uma das primeiras pessoas a receber um email de Satoshi antes do lançamento, quando Satoshi queria saber como referenciar o Hashcash corretamente.

O criador do Bitcoin — seja lá quem for — considerou Adam Back uma referência suficientemente importante para ser a primeira pessoa a contatar antes de lançar a maior revolução monetária do século.

A investigação do NYT foi além: análise linguística forense identificou padrões de escrita idênticos entre Back e Satoshi — hifenização incomum, uso de “also” no final de frases, alternância entre grafias britânicas e americanas. Se Back for de fato Satoshi, seus aproximadamente 1,1 milhão de Bitcoin valeriam cerca de 70 bilhões de dólares ao preço atual.

Back negou com firmeza. Mas em 2013 — exatamente quando pesquisadores estimaram pela primeira vez o valor da carteira de Satoshi — ele apareceu publicamente no ecossistema Bitcoin pela primeira vez. E dois anos depois, fundou a Blockstream.Parte II

Da Blockstream ao PIX brasileiro — a cadeia completa

Em 2014, Adam Back co-fundou a Blockstream com alguns dos maiores desenvolvedores de Bitcoin do mundo. O objetivo era construir a infraestrutura que faltava para o Bitcoin funcionar como sistema financeiro global. Em 2018, após três anos de desenvolvimento, a empresa lançou a Red de Líquidos.

A Liquid é uma sidechain do Bitcoin — uma rede paralela, conectada ao Bitcoin principal, mas com características próprias. Dois diferenciais técnicos são essenciais para entender o que vem a seguir.

CaracterísticasBitcoin mainchainRed de Líquidos
Tempo de confirmação~10 minutos~1 minuto
Valores das transaçõesVisíveis publicamenteOcultos por padrão
Tipo de ativoVisível publicamenteOculto por padrão
Confirmação da transaçãoPública e rastreávelConfirmada, mas confidencial

O diferencial que muda tudo é o segundo: a Liquid usa Confidential Transactions. Isso significa que o explorador público confirma que uma transação aconteceu, mas não revela o valor nem o tipo de ativo movimentado. Qualquer pessoa que saiba seu endereço Bitcoin pode ver exatamente quanto você tem e para onde enviou. Na Liquid, essa transparência se dissolve.

É exatamente nessa infraestrutura que, em 2024, nasceu o DePix — criado por brasileiros, para brasileiros, como ponte entre o PIX e a Liquid Network.

Como o DePix funciona na prática

O mecanismo é mais simples do que parece. Você acessa uma plataforma parceira do DePix, informa seu CPF e seu endereço de carteira Liquid. Em seguida, faz um PIX normal — como se estivesse pagando qualquer coisa. O sistema bancário registra uma compra. Você recebe DePix na sua carteira Liquid: um token lastreado 1:1 no real, onde cada unidade equivale a exatamente R$1,00.

A partir desse ponto, você está dentro da Liquid Network. Graças às Confidential Transactions, o que você faz com esses tokens — se troca por Bitcoin (L-BTC), realiza swaps ou simplesmente guarda — é visível ao explorador como transação, mas os valores e ativos permanecem ocultos.

Importante: O governo brasileiro tem visibilidade até o momento do DePix. As movimentações dentro da Liquid Network são responsabilidade do usuário declarar. Usar DePix não elimina obrigações fiscais — elimina o rastreamento automático. Este artigo não constitui aconselhamento jurídico ou fiscal.

A analogia mais precisa é o dinheiro em espécie. Quando você paga em dinheiro vivo, o governo não sabe automaticamente o que comprou. O DePix é o equivalente digital dessa privacidade — só que implementado em nível de infraestrutura, dentro de um protocolo aberto construído pela Blockstream de Adam Back.

O que essa história realmente revela

Desde os anos 90, quando os cypherpunks começaram a sonhar com dinheiro digital privado, o Estado caminha na direção oposta. Cada inovação financeira que o Estado adota — cartões, PIX, CBDCs — vem com rastreamento total embutido. Não necessariamente por malícia, mas porque rastreamento é poder. E poder é difícil de resistir.

O que acontece quando o pagamento instantâneo se torna compulsório? Quando o dinheiro físico desaparece? Quando cada transação está vinculada ao CPF, ao rosto, à identidade? Você perde a optionalidade. Você perde a capacidade de existir financeiramente fora do sistema.

O DePix não resolve isso completamente. Tem limitações. Tem riscos. Não é solução para todo mundo. Mas representa algo maior: a prova de que a infraestrutura de privacidade que os cypherpunks sonharam nos anos 90 está funcional, acessível e chegando ao cotidiano brasileiro.

Em vez de confrontar o sistema financeiro com ferramentas ilegais, o DePix o subverte por dentro. A arquitetura é simples: cada PIX enviado é tratado como uma compra banal. O sistema bancário interpreta, registra e aceita. Mas o usuário está adquirindo um sintético de real na Liquid Network — onde o rastreamento automático se dissolve.

Essa história importa independentemente de quem Adam Back seja. O que ele construiu já está funcionando. Já está no Brasil. Já está disponível para qualquer pessoa que decida explorar. A questão não é se você precisa disso hoje — é entender que a opção existe, e que ela foi construída por pessoas que levam privacidade financeira mais a sério do que qualquer banco central.

“Não sabemos se Adam Back é Satoshi. Provavelmente nunca vamos saber com certeza. Mas sabemos que a visão que Satoshi tinha — de devolver ao indivíduo o controle sobre o próprio dinheiro — está sendo executada, bloco por bloco, transação por transação, por pessoas que nunca vão aparecer em manchetes.”

E que parte dessa execução está acontecendo aqui, no Brasil, agora.

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