Breaking News
Popular News







Andy Yen, fundador e CEO da Proton — empresa suíça responsável pelo Proton Mail, Proton VPN e outros serviços focados em privacidade — publicou em 23 de abril um artigo de opinião direto sobre o avanço global das leis de verificação de idade online.
O texto é relevante para o debate brasileiro porque descreve com precisão os problemas estruturais da Lei Felca, que entrou em vigor em março de 2026.
Yen começa reconhecendo o que é legítimo no argumento dos defensores dessas leis: as preocupações dos pais são reais e sinceras, e poucos defenderiam acesso irrestrito de crianças a material adulto ou plataformas que as manipulam. Mas é exatamente a profundidade dessas preocupações, diz ele, que está sendo explorada cinicamente.
O primeiro argumento de Yen é empírico. A verificação de idade como está sendo proposta em vários países — enviando passaportes, fotos, vídeos, até impressões digitais — cria bancos de dados de informações sensíveis que invariavelmente vão vazar.
O exemplo prático é o Discord: em outubro de 2025, a plataforma confirmou que hackers acessaram registros de mais de 70 mil usuários mantidos por uma empresa terceirizada contratada para fazer verificação de idade — incluindo fotos de documentos de identidade.
Mas o Discord sequer é um caso isolado. Quanto mais sensível o dado coletado, mais valioso ele se torna como alvo. E quanto mais empresas são obrigadas a coletar isso, maior a superfície de ataque.
Terceirizar para uma empresa “especializada” não resolve: a terceirizada se torna um alvo ainda mais atraente, e precisa compensar custos de alguma forma, o que cria pressão para monetizar os dados coletados.
Yen faz uma crítica específica a quem propõe deixar Apple e Google resolverem o problema no nível do sistema operacional — a mesma lógica que está embutida em várias versões de leis de verificação de idade, incluindo a brasileira. A Apple anunciou recentemente um plano no Reino Unido para fazer exatamente isso.
O problema é que essas empresas construíram seus impérios coletando dados e favorecendo seus próprios produtos. Inclusive já pagaram bilhões de dólares em multas por isso. Dar a elas o controle sobre verificação de identidade no nível do dispositivo é entregar o mesmo ator que causou o problema como solução.
Yen ainda afirmou que a Proton não vai implementar verificação de idade da forma que está sendo proposta — e deixa implícito que a empresa preferiria sair de mercados do que fazê-lo.
“Dadas todas as ameaças online que existem, o desejo de “fazer algo” para proteger as crianças é compreensível, e até louvável. Mas, com a verificação de idade, corremos o risco de perpetuar e reforçar todos os piores aspectos da internet. E o fim dessa jornada de boas intenções é, de fato, um lugar infernal.”, concluiu ele.
O argumento central de Yen é sobre quem se beneficia. As leis de verificação de idade, como estão desenhadas, transferem o controle da identidade digital para as mesmas big techs que criaram o problema original, sob o pretexto de proteger crianças.
Plataformas menores e concorrentes que competem com modelos de negócio baseados em privacidade, como a própria Proton, ficam em desvantagem ou são forçadas a sair do mercado.
O Brasil aprovou a Lei Felca em 2024, e ela entrou em vigor em março de 2026. A lei exige que plataformas digitais implementem mecanismos de verificação de idade — e os detalhes técnicos de como isso será feito ainda não foram totalmente regulamentados.
O GrapheneOS, sistema operacional focado em privacidade, recusou-se explicitamente a implementar a lei. Segundo os desenvolvedores do GrapheneOS, as exigências expõem menores exatamente ao tipo de exploração que pretende prevenir.
Yen chega à mesma conclusão por um caminho diferente: o problema não é a intenção das leis, é o design. E o design atual — que exige coleta centralizada de dados de identidade — vai inevitavelmente produzir vazamentos, concentrar poder nas big techs e criar infraestrutura que pode ser usada para fins bem além da proteção de crianças.
Veja também: