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Elon Musk publicou esta semana uma proposta que deve render debates: “Renda universal ALTA via cheques emitidos pelo governo federal é a melhor forma de lidar com o desemprego causado pela IA. IA e robótica vão produzir bens e serviços bem além do aumento da oferta monetária, então não haverá inflação.”
Em poucas linhas, Musk resumiu uma visão que tem três componentes distintos: um diagnóstico (a IA vai causar desemprego em massa), uma solução (o governo deve emitir renda para todos) e uma justificativa econômica (a produtividade da IA impedirá a inflação). Os três merecem ser examinados separadamente.
A ideia de que uma nova tecnologia vai eliminar o trabalho humano não é nova. Ela apareceu com o tear mecânico no século XVIII, com a eletricidade no XIX e com os computadores no XX. Em todos os casos, a tecnologia eliminou categorias de emprego e criou outras que não existiam antes, geralmente em quantidade maior e com salários reais mais altos.
Isso não significa que a IA não vai deslocar trabalhadores. Vai, e a Soberano já analisou quais profissões estão mais expostas. Mas há uma distância enorme entre “deslocar trabalhadores” e “eliminar o trabalho”.
A inteligência artificial atual é muito boa em tarefas específicas e repetitivas. É muito ruim em adaptação a contextos novos, julgamento em situações ambíguas e qualquer coisa que exija responsabilidade real. Os limites práticos da automação são sistematicamente subestimados nas projeções mais alarmistas.
Musk tem um histórico relevante aqui: em 2016, ele previu que carros totalmente autônomos estariam rodando sem supervisão humana em dois anos. Hoje, em 2026, a Tesla ainda não tem um carro que dispense completamente o motorista. O otimismo sobre o ritmo da IA costuma ser alto e o timing, errado.
Existe até um site chamado Elon Musk Today que lista, entre outras frases polêmicas, promessas e previsões irrealistas de Musk que não foram cumpridas. Dentre elas, que o “super carregador” da Tesla permitiria que o usuário viajasse para qualquer lugar de graça apenas com energia solar, e que o X atingiria 1 bilhão de usuários mensais em até 18 meses (se passaram 40 meses da previsão).
O argumento de Musk, que a produtividade da IA absorveria o aumento da oferta monetária e eliminaria a inflação, é a parte mais problemática da proposta.
A Escola Austríaca de economia tem uma resposta clara para isso: inflação não é aumento de preços, é aumento da oferta de moeda. Quando o governo emite cheques para todos os cidadãos, está “imprimindo dinheiro”, por assim dizer, para realizar esses pagamentos.
É apenas depois que as pessoas começam a gastar esse dinheiro novo que a economia real percebe, aos poucos, o aumento da oferta monetária, e o aumento de preços é a consequência natural.
O argumento de que “produção de bens e serviços pela IA compensará o aumento monetário” confunde causa e efeito. Se a produção real de bens crescer, será ótimo. Mas isso não cancela os efeitos distributivos da emissão. Se os preços permanecem os mesmos com aumento da oferta monetária, quer dizer que o dinheiro novo, no mínimo, impediu os preços de caírem.
Não deixa de ser uma economia com preços mais altos do que seriam sem a emissão, mas com as distorções alocativas características de qualquer expansão monetária artificial.
O Partido Libertário americano respondeu ao tweet de Musk com uma crítica que vai além da economia: “É a configuração perfeita para um sistema de crédito social ao estilo chinês — forçar todos para um dólar digital governamental que rastreia cada compra e movimento.”
É um argumento sólido contra o avanço de CBDC (Central Bank Digital Currency). Qualquer sistema de transferência direta de renda em escala nacional exige infraestrutura de pagamentos controlada pelo Estado.
Se essa infraestrutura for digital — e provavelmente seria, num mundo com IAs avançadas como pressuposto — ela cria capacidade de rastreamento e bloqueio de transações. A diferença entre “dinheiro universal” e “dinheiro condicional” é apenas uma decisão política. Hoje transferência incondicional, amanhã sujeita a comportamento aprovado pelo governo.
Não é especulação sem fundamento: é o que o Drex, o euro digital e vários CBDCs ao redor do mundo já anunciam como funcionalidade. Capacidade de bloqueio é um recurso, não um defeito, do ponto de vista dos emissores.
É notável que Musk — que se posicionou como libertário por anos e foi responsável pelo departamento de eficiência do governo americano — esteja propondo uma das maiores expansões de gastos federais já imaginadas. Alta renda universal para toda a população americana seria possivelmente um programa de dezenas de trilhões de dólares por ano.
Isso pode ser explicado de algumas formas. A mais generosa é que Musk genuinamente acredita que a IA criará abundância suficiente para financiar o programa. A mais cética é que Musk tem interesse direto em acelerar a adoção de IA e robótica — e remover resistência política ao desemprego tecnológico mediante transferências governamentais é uma forma de pavimentar esse caminho.
Seja qual for a motivação, a proposta ignora o que a história ensina: não existe almoço grátis emitido pelo governo. Alguém sempre paga: seja via inflação, tributação futura ou perda de liberdade.